sábado, 18 de abril de 2009

É tudo uma questão de perspectiva

Não consigo deixar de pensar nos meus amigos. Estes têm sido dias duros para muitos deles.

Quatro amigos e todos próximos, daqueles com quem falamos quase todos os dias, passam por momentos muito difíceis. Uma amiga perdeu a mãe, outra o irmão, um amigo tem a mãe nos cuidados intensivos e a amiga de todos os dias não está cá porque o pai precisa dela.

Tenho uma relação próxima com a morte e com a doença. Não me assustam, as minhas. Vivi demasiado perto desta realidade que a absorvi e aprendi a viver com ela. No entanto excluí-me do grupo daqueles que um dia perdem um pai, uma mãe ou um irmão. Eu iria primeiro e por isso nunca passaria por tal dor. Não me preparei, como se preparar fosse possível, mas imagino que a maioria das pessoas pensa eventualmente nesta situação e cria defesas que não funcionam quando se vêem confrontadas com um evento destes. Eu não, sempre acreditei que ia antes.

Anos passados, com a sorte do meu lado, vejo o sofrimento dos meus amigos como um sinal, uma chamada à realidade. E se fosse eu a estar no lugar deles? Como reagiria? Não sei, a ideia peturba-me e quero apartá-la. Cada dor é diferente e única por isso o exercício é inútil, só cria amargura e tristeza e não me fará entender a dor que atinge aqueles de quem eu gosto.

Bem lá no alto da minha pirâmide de afectos estão os meus pais e a minha irmã. Não consigo evitá-lo. Sempre fui muito amado, protegido, apoiado incondicionalmente. Qual dos três gosto mais? Não sei, não sei mesmo, não é a resposta politicamente correcta. Nos três vejo um, o meu núcleo, a minha vida. São amores diferentes, incomparáveis, únicos. O amor de uma família sagrada. Da mãe o amor que educa e protege; do pai o amor que ensina e defende; da irmã o amor que partilha e apoia.

Quando há alguma novidade ou problema sou o primeiro a quem falam. Gostam das minhas opiniões, dos meus conselhos apesar de ter sido deles que aprendi a discernir. Admiram a minha forma de pensar, a minha abertura, os meus fundamentos e a minha compreensão mas foram eles que me fizeram assim.

Olho para os meus amigos, olho para a minha família. Não sei o que dizer. Perturba-me a ideia. Não faz sentido.

Como diz a amiga de todos os dias, voltamos ao ABC da vida e todo o resto deixa de ser importante. É tudo uma questão de perspectiva. Somos assim por eles e para eles. Devemos-lhes a vida e o amor que sentimos.

Amigos, estou aqui, não sei tirar-vos a dor, consolar-vos no que não tem consolo. Posso dar-vos a minha mão, não para tornar o caminho mais fácil mas, quem sabe, mais suportável.

U e L podeis não ver o vosso núcleo. Não está à vossa frente mas dentro de vós, nos vossos genes, nos vossos actos, nos vossos pensamentos, no vosso amor.

S e C não imagino o que é ver quem somos assim diante de nós. O amor move montanhas e vós estais cheios dele. Posso pedir-vos um favor? Não percais o vosso sorriso. O sorriso é a porta da esperança e se os vossos vêem o vosso sorriso e a vossa esperança têm mais força para lutar.

A última palavra vai para o meu núcleo. O ABC da vida diz-me que tem de ser. Escrevo muito sobre ele mas nunca o digo.
Amo-vos!

11 comentários:

Diabba disse...

Não sou do teu núcleo, mas também te amo!

beijo d'enxofre

Lua disse...

Que bonito Melões. Se estivesse no lugar deles era ler isto que me fazia sorrir, mesmo que só por um momento.

Claratje disse...

Os teus amigos tem sorte terem um amigo como tu...

CITRAG disse...

Que rico amigo que és! Depois de ler este post não posso deixar de ter um bocadinho de inveja (da saudável, é claro) dos teus amigos.

geocrusoe disse...

não importa o local no abcdário... mas os amigos também fazem parte do nosso núcleo e quando perdemos um familiar muito próximo (no meu caso o pai) eles ajudam, e muito, a cicatrizar as feridas e a suportar a dor.

pinguim disse...

Como eu precisei de palavras destas há bem pouco tempo quando perdi a minha irmã...
Abraço amigo.

Carlos disse...

São abençoados esses de quem és verdadeiro amigo, tocam-me profundamente as tuas palavras, até porque na sexta-feira santa partiu inesperadamente o pai do meu melhor amigo Edu. E todas estas coisas nos fazem pensar, como tu dizes, o dia em que nos tivermos de enfrent-las... cara a cara. Um abraço e Obrigado pela tuas palavras.

Mocho Falante disse...

é bom, é mesmo muito bom poder contar com amigos como tu!

Um abraço cheio de paz

Anónimo disse...

Blogar é bom, quando aparece um blog como o teu.Não tenhas medo, na hora vais sentir um vazio, mas nunca vais sentir a sua ausencia, porque está tudo no coração e na mente bem guardado e uma calma fora do normal, temos que encarar a morte como uma coisa normal, ninguém se salva, todos temos que acabar assim, por isso tens que te mentalizar. Para te distraíres vai ver o Blog da minha Associação
CULTARTIS.BLOGSPOT.COM.Um beijo e vive a tua vida com prazer.FIFI

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Gostei muito de ler este post em particular. DE uma humildade onde te subssumes porque pensavas que ias primeiro e sobretudo do que falas da familia. Sou exactamente igual.

"Bem lá no alto da minha pirâmide de afectos estão os meus pais e a minha irmã.(...) Da mãe o amor que educa e protege; do pai o amor que ensina e defende; da irmã o amor que partilha e apoia."

Eu tenho uma irmã e dois irmãos, o meu pai também. Sobre a minha mãe, costumava dizer que acima de Deus ainda há a minha Mãe.

Mas pela humanidade que revelaste em dar a tua experiencia e pela humildade e sensibilidade que ficou, fico-te agradecido por nao ser o unico a deixar de pensar em mim...

Abraço assim __________ Sempre querido amigo

calamity jane disse...

Um abraço grande para ti e para eles. O dela, já lho enviei "pessoalmente".