sábado, 25 de abril de 2009

Liberdade

Os meus blogues, para o mais observador, são alimentados aos fins-de semana. Sábado ou domingo não interessa, um ou outro também não, estando em Londres, saio de casa para tomar o pequeno-almoço com o meu caderno preto, sento-me no café e o que sair, saiu. Se é alguma experiência, vivência, reflexão, cai aqui, senão cai ali ao lado onde a ficção se faz realidade.

Não estando em Londres não há entradas. Como não há se recebo alguém. Os meus cantos preenchem o vazio das manhãs de fim-de-semana antes de sair para visitar os meus meninos e assim também os fins-de-semana acabam por se tornar rotina.

A rotina não tem de ser má desde que não seja acomodada. Cria disciplina e faz-nos aproveitar momentos em que, de outra forma, estaríamos sentados no sofá, preguiçosos, a desperdiçar o tempo que é tão escasso.

Como já repararam hoje estou sem imaginação. Normalmente quando abro o caderno preto, as palavras saem-me, jorram sem ter de pensar muito. Hoje não.

Pensei falar da liberdade, do dia que hoje se celebra, mas, vá lá, crucifiquem-me, o dia não me diz grande coisa. Sou daquela geração que nasceu pós-revolução, e depois?

Só sei como era antes pelas histórias que ouvi em casa: o meu pai foi perseguido quando era estudante por fazer um comentário num café da baixa do Porto; foi dois anos para a guerra em Moçambique; o meu avô foi interrogado quando não foi votar porque recebeu o boletim de voto com a cruz já marcada. Mas o meu pai, pós revolução, teve de sair do local de trabalho na mala do carro ante a fúria dos que antes eram companheiros leais e o meu avô viu-se obrigado a dividir a família para que não lhe ocupassem as casas e ainda assim, aqueles que um dia ajudou lhe queimaram uma das casas, a ele, cujo pai fundou os bombeiros da vila, que abriu e parcialmente financiou o lar de terceira idade, que pagou do seu bolso o serviço de sangue no único hospital da terra.

Sim, o meu avô nunca teve a liberdade de não ser julgado, talvez porque julgava os outros, mas sempre teve a liberdade de pensar.

Pensando não votava quando lhe aparecia o boletim com a cruz e aguentou interrogatórios e quase perdeu o posto de trabalho, mas depois, o respeitável juíz virou o monstro. Para que quer o senhor as casas? As vinhas? A terra a quem a trabalha – e eu que nunca vi o meu avô com medo da enxada e ninguém conhecia a vinha tão bem como ele.

Ganhámos a liberdade! Ainda bem, respeito-a e dou-lhe valor. Não sei o que seria viver sem liberdade nem gostaria de viver sem ela. Mas a minha liberdade deixa-me ficar indiferente a este dia. O passado, passou. As promessas de Abril ficaram na gaveta. O regime mudou, as pessoas não. Vivem no Abril de há trinta e cinco anos, sentadas no sofá sem aproveitar o tempo.

Ainda que me tirem todas as liberdades, a de pensar pela minha cabeça ninguém ma tira. Não sou pós Abril. Não sou anti Abril. Vivo hoje e não me interessa se há uma praça com o nome Salazar ou uma ponte com o nome 25 de Abril. Pois será isso, não sou fascista nem comunista e irrita-me a celebração de um dia que fez com que uma nação inteira tenha ficado sentada no sofá durante décadas enquanto engole novelas e futebol.

Cada um usa a liberdade como quer e a minha é fazer, tal como o avô me ensinou, ainda que me torne num peixe fora de água.


PS – apesar de achar belíssima a música de intervenção, escolho esta. Afinal o povo é manso. Não ordena e a fraternidade é claramente mais rara do que a que havia há trinta e cinco anos atrás. Esta aproxima-se mais do meu conceito de liberdade.

4 comentários:

geocrusoe disse...

as palavras podem não te ter brotado como querias... mas a ideia do que se transformou o 25 de abril no presente atingiu-te neste dia. concordo na integra com o que dissestes

pinguim disse...

Caro amigo
escrevi sobre este dia, mas escrevi essencialmente sobre um Homem, que nunca seria capaz de se voltar contra quem pensava como ele, e não falei de outros homens conotados com o 25 de Abril, que porventura instigaram o que se passou com os teus.
Falei na juventude que hoje ignora esta data, mas não falei de quem tem consciência do que ela representa, bem ou mal...
E concordo que o purismo do que foi feito, foi depois tantas vezes ultrapassado por demagogias, ideologias oportunistas e outras coisas mais, mas deixou-nos o essencial: a Liberdade de podermos expressar o que antes só tínhamos a liberdade de pensar...
Abraço amigo.

Paulo disse...

ah, (des)inspirado! afinal, achavas-te sem imaginação e tocaste no essencial: o livre pensamento. não temos já a noção da importância do dia? é verdade que não! acho que muito por culpa desses que se sentam comodamente no sofá a ver documentários ou organizando discursos cheios de mofo, enquanto os mais novos perdem a completa noção da história, dos factos que nos fazem estar aqui e agora, dizer e agir de uma forma que não era lícita. mas que importa isso se o dia não passa já de um feriado?


abraço

Wask disse...

sentimos a tua falta ontem... acho que a temos sentido ao longo destes meses em que lemos o que escreves e tentamos meter-nos nas tuas botas e tentar perceber como tens passado os dias no clima financeiro/emocional que tem acontecido. Porque a tua ausencia nos preocupa. Gostavamos todos de te ver outra vez, de conversar sobre tudo e sobre nada. Porque a tua companhia faz-nos falta (e acho que falo por todos os do costume...)