quinta-feira, 2 de abril de 2009

Os anormais III

É engraçado como toda a gente tem uma opinião àcerca de tudo, mesmo do que não sabe.

Porque afinal se eu financiar um "aluminum smelter" em Moçambique que emprega milhares de moçambicanos que não tinham onde cair mortos e com isso a empresa constroi estradas, aeroportos e floresce o comércio tradicional, apoiado pelos bancos de desenvolvimento e pelo World Bank, e se é dado como exemplo de bom investimento sustentável no país e fora dele; ou se decidir financiar um porto perdido no sul da Anatólia para distribuir e escoar a produção no e do Médio Oriente que emprega milhares e com ele vêm armazéns, empresas de logística , se aumenta o turismo e com eles emprego e riqueza; e a lista continua, não estou a fazer nada para que as condições nestes países melhorem. É melhor deixar esta gente no meio das suas terras improdutivas sem nada para fazer e a morrer à fome. É ir lá ao terreno e falar com eles e ver os olhos brilhar porque já podem pôr os filhos na escola. Se isto não é viver melhor, então não sei o que é, mas sei o que vejo e o que me é dito nas minhas visitas aos projectos.

Mas parece que não, estes pobres nem têm dinheiro para voar "low cost" para se manifestarem... pois digo eu, estão muito mais preocupados com outras coisas, têm mais que fazer, sobreviver e manter um trabalho é mais importante que ser uma carneirada de olhar enviesado, que usa e abusa de um sistema económico e social que os sustenta para o deitar abaixo.

O que está mal corrige-se com actos, fazer, mas fazer todos os dias. Não é acordar todos os dias ressacado, dar duas voltas na cama, beber até cair para o lado, fumar uns charros e umas drogas que financiam sabemos todos muito bem o quê. E um dia porque é mais difícil ter-se a vidinha do costume, acorda-se e toca a culpar tudo e todos, porque andaram a brincar com o dinheiro deles.

Não me venham falar de moral. A minha moral está naquilo que faço. O que faço no meu trabalho e o que faço fora dele. Todos os dias. E não é por isso que venho para aqui vangloriar-me do que faço. Dou o meu tempo, às vezes chego a dar a minha saúde. Três projectos pessoais diferentes para fazerem deste mundo um mundo melhor.

Por isso não me venham cá com tretas. Não fui eu quem criou esta crise, não explorei os pretos (não tenho medo das palavras) e não exploro os brancos. Tive uma vida que foi um mar de rosas? Quanto mais rosas, mais espinhos meus amigos. Mas não vale a pena queixar-me. É andar em frente.

Conheço a minha vida como ninguém, conheço os meus valores, todos os dias luto para não me deixar ficar mal.

E se sou bem pago? Sim, sou muito bem pago, principalmente pelos esquecidos que não têm futuro e a quem este mundo sujo ainda oferece algum conforto. Sou bem pago quando vejo que os meus sacrifícios físicos dão frutos com fundos do Estado para melhorar a vida de milhares. Sou bem pago quando uma criança se despede de mim enquanto me olha nos olhos como sou bem pago quando vejo as mudanças nas caras das pessoas envolvidas nos meus projectos com o passar do tempo.

E isto é dar-se todos os dias, é um sacerdócio, uma forma de vida. Há que abraçá-lo sempre.

Se todos os que vêm aqui para a porta mandar vir fizessem metade do que eu faço, concerteza este mundo seria bem melhor.

9 comentários:

Lids disse...

A nossa conciência é o que importa e essa não se apaga com novas modas. Agora está na moda criticar os bancos e os seus funcionários, mas daqui a nada essa moda passa e os alvos serão outros. Tenho gostado da tua saga de post "Os anormais".

geocrusoe disse...

o que me preocupa mais nesses "anormais" é que se calhar tal como na geração de 60, muitos passarão de um extremo ao outro, pisando ainda mais os valores que defendiam do que os seus antecessores por eles criticados.

pinguim disse...

Percebo a analogia com a geração de 60, apenas no que se refere às posições que hoje ocupam, a maior parte deles pelo menos, na sociedade.
De resto tudo os diferencia, desde os tempos que eram outros até uma coisa que havia nessa geração e não neste bando de "contestários" e que era a existência de ideais de então...
Abraço.

geocrusoe disse...

ao pinguim
concordo que existem muitas diferenças em termos de ideais, mas tal não impediu a sua transformação no que muitos são hoje, imagine agora se os contestários de hoje seguirem o mesmo trajecto deles, serão então os sucessores dos actuais, só que nunca tiveram ideiais ou valores, não é assutador?

Diabba disse...

Mas qué que tu tens contra os charros, hã??? Ai a cumbersa!

(saindo pa ir enrolar um)

enxofre

ana v. disse...

Tens toda a razão. Caramba, se ninguém trabalhar e der o seu melhor onde vamos parar? Não é com reclamações que se inverte a crise, e é sempre muito mais fácil reclamar do que fazer alguma coisa de útil!

beijo

AnAndrade disse...

O direito de manifestação é algo que considero fabuloso, se calhar porque foi uma conquista tardia, no nosso país.
Infelizmente, banalizou-se, como o direito à greve.
É triste...

calamity jane disse...

Amigo, li com atenção as tuas postas denominadas "Os anormais". Já tinha lido a primeira da série, há uns tempos. E compreendo o que dizes (mesmo!), embora não possa concordar contigo. Mas o motivo da minha não concordância prende-se com uma questão de fundo. Tem tão-somente a ver com isto: eu não acredito no sistema. Penso que o modelo está esgotado. Deu o que tinha a dar (muito a muito poucos e muito pouco a tantos outros). Digas o que disseres este sistema faz perdurar a desigualdade entre os seres humanos. Muitos esfalfam-se tanto ou mais do que tu e continuam a não ter onde cair mortos. Outros encostam-se ao trabalho destes. E não são só os que se manifestam na rua. São os que se sentam, deitam em cima do seu trabalho. Os que bebem, comem, fumam, cheiram, se rebolam no seu trabalho. Os que serão enterrados em caixões de ouro cravejados a diamantes que não lapidaram, que não construíram, que não suaram para conseguir. Para mim este sistema está podre e acabará fatalmente por ruir. E não me venham dizer que é o melhor que temos. Isto é o que nos andam a impingir desde que me lembro de mim. Crise? Qual crise? Aqui em Portugal A EDP fez os maiores lucros de sempre. O BPI, o Santander, idem idem aspas aspas. Crise?
Lamento, mas para esse peditório já dei. Respeito muito o teu trabalho, acredito que o fazes com honestidade e até com abnegação. Acredito que haja instituições financeiras que façam algum bem. Mas não aceito que me venham atirar areia para os olhos dizendo que temos todos de nos aguentar enquanto empresas trilionárias embolsam a cada dia que passa milhões com a desgraça de tantos outros que de um dia para o outro ficam sem sustento e lhes é dito que, desculpe lá, temos de dar o seu posto de trabalho a outro desgraçado que aceita trabalhar por um terço do seu salário e sem direito a férias nem a segurança social. Sabe, é a crise. E depois vira as costas e enfia-se na sua limousine de cem mil contos. PQP.
Acredito na tua honestidade, e que trabalhas a valer. Mas há muitos outros a trabalhar a valer e que não vêem os frutos do seu trabalho. E outros que poderiam trabalhar a valar se ao menos lhes fosse dada uma oportunidade de o fazer. Acredito que não sejam esses a manifestar-se. Mas como o fariam? Os tais de que falas e outros ainda que não têm sequer a sorte de "já poder pôr os filhos na escola"...

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Calamity - a nossa grande diferenca e que eu nao acho que o sistema esteja esgotado porque nunca foi praticado. Mas nenhum sistema funcionara porque a natureza dos homens e e sempre sera, fruto de um instinto primario de sobrevivencia, egoista e nao posso concordar com um padrao de distribuicao indiscriminada de riqueza porque levaria a outros problemas em que metade trabalharia para outra metade, ie, nao haveria diferencas do que ha hoje.
Quanto aos lucros das empresas que falas, o da EDP nao teve nada a ver com Portugal porque em Portugal diminuiram, vieram essencialmente do Brasil devido ao aumento da base de clientes, diferencas cambiais e mais erradamente nao passar os beneficios da descda dos precos dos combustiveis. Por outro lado, e esquecemo-nos disto, o sector energetico tem pela frente um futuro muito dificil o que significa grandes investimentos - a maioria dos lucros nao sao distribuidos, pelo menos o pay-out ratio e bastante menor do que nas electricas do estrangeiro e se dentro de uns anos nao houver solucoes para a quebra das reservas de combustiveis fosseis, estariamos perante uma crise pior do que esta. Os resultados do BPI cairam mais de 50% e os do Santander se nao se contarem as aquisicao do ABN no Brasil, tambem teria caido significativamente (22%). E a culpa de quem e? E dos que criaram produtos de elevado risco e meia duzia de ilumibados que decidiram roubar a malta e todos estes colarinhos brancos, mas tambem e nao com menos responsabilidade dos que viveram acima das possibilidades nao podendo pagar mais do que juros e isto tambem e roubar.
Ha crise, nao ha volta a dar-lhe. O nosso primeiro anda meio aluado que ainda nao percebeu muito bem mas o pais gera menos, ha mais desempregados e menos impostos porque ha menos riqueza.
E uma coisa te posso garantir, a maioria dos que fazem o que eu faco nao tem a minima responsabilidade, vamos trabalhar como toda a gente, recebemos o nosso (e muitos como deves bem saber recebem uma miseria neste sector) por isso nao temos que levar em cima com o barulho de quem nao faz nada e sai de casa armado com barrotes e de cara coberta. As reivindicacoes fazem-se de cara destapada, e que as facam na assembleia da republica, em casa dos colarinhos brancos mas que a mim me deixem em paz. Se estao preocupados com s bancos que vao la reclamar as poupancas, o problema e que nao as tem, tem dividas, porque ai sim, a pressao era causada em cima.
Infelizmente o direito a greve e o direito a manifestacao, a liberdade de expressao, sao abusados por meia duzia de anormais.
Acho muito bem que se mostrem aos politicos que aqui vieram, que se mostrem ao governador do Banco de Inglaterra porque a regulacao falhou mas que nao me incomodem que nao fiz mal a ninguem e faco o que posso dentro e fora do trabalho.
E achas que os que se foram manifestar, estao la pelos que nao podem por os filhos nas escolas ou estao la porque o periodo das vacas gordas acabou? Porque os que nao poem os filhos na escola nunca o fizeram e nem por isso vem pessoal atacar a malta todos os dias nem todos os anos.
Como dizia eu o direito a greve e a liberdade de expressao em nada faz justica aos que lutaram seriamente por eles. Infelizmente.
Digo-te o que e e a ganancia de muitos, a preguica de outros tantos e a inveja dos demais.
Beijo