sábado, 16 de maio de 2009

O olhar que pede colo

Foi bom ter estado tantos dias em Portugal. O momento era importante e foi emocionalmente muito intenso. Felizmente tudo está bem mas houve momentos em que parecia que não.

O sinal de que as coisas não estavam bem, vi-o assim que saí do aeroporto nos olhos dos meus pais. Um olhar nervoso, ansioso e uma resposta breve a “olha os avós babados”. Um breve “vamos lá ver”.

A mana, bastante doente, armava-se em forte. Não viu a filha durante um dia porque a marota, esfomeada como é, lembrou-se de provar líquido amniótico. Uma parte foi para os pulmões. Resultado: uma pneumonia e cinco dias de cuidados intensivos. Mas voltando à mana, a forte mana, com os sacos de ferro atrás, mandava todas as visitas embora porque queria ver e estar com a menina e nos cuidados intensivos só podiam estar os pais da criança. Estava com uma anemia muito séria mas uma energia que só a protecção de mãe podia dar. Sentava-se ao lado da bebé, olhava para ela horas a fio sem poder tocar-lhe.

A mana, a forte mana, que sorria a toda a gente para dar força aos recém avós, ao pai, também me sorriu. Pediu que me deixassem entrar nos cuidados intensivos. Não sei como o fez, conseguiu-o.

Não me peçam que descreva a sala, não me lembro, havia outros bebés mas não reparei neles. Entrei e no canto da sala escura a minha irmã sentada. Olhou-me, e com que força me olhou. Disse-me “olha a tua afilhada” com um olhar de quem tinha sido abandonada, fixado, parado em mim. Deixou correr as lágrimas em silêncio, muitas, quase não olhei para a minha afilhada, quem mais precisava de mim era a minha irmã que embalei como se fosse um bebé, também ela precisava de cuidados. Muitos.

Tudo correu bem, já estão as duas em casa e eu de volta à ilha. Tio e padrinho de uma menina grande, esfomeada e irrequieta. Desde o início, sempre achei que tudo iria correr bem. Alturas houve em que fui o único.

A tensão instalou-se, houve conversas duras mas essas não interessam. A minha dor e a minha alegria eram a dor e a alegria da minha irmã.

Dormi pouco, troquei fraldas, dei de comer, fiz com que a família funcionasse. Ouvi segredos, desabafos e fiz o que achei que devia fazer.

Trago comigo uma semana de emoções, daquelas que nos põem no sítio e relativizam tudo.

A minha afilhada tem uma mãe com letra grande e tenho pena de não estar lá ao lado.

Trago comigo muita coisa, mas entre todas as coisas, trago comigo aquele olhar de uma mãe que pede colo. E como doeu.

8 comentários:

Lua disse...

Seria tão bom que todos se lembrassem que mães (as que parem e as que embora não o façam, se preparam para o ser - mãe) também precisam de colo, provalvemente ainda mais do que os que naquele momento chegaram ao mundo.

Muitas felicidades. Espero que continue a correr tudo bem.

CITRAG disse...

Parabéns à tua irmã e sobrinha por terem um irmão e padrinho como tu. De certo que colo e muito amor não lhes faltarão!

Paulo disse...

mais parabéns e folgo em saber que está tudo bem! como sempre devia estar! e fizeste tudo o que um tio/padrilho/irmã/filho tinha de fazer. ainda bem que te sentes bem! e que agora corra tudo muito bem com a menina esfomeada!

abraço

geocrusoe disse...

Parabéns ao tio/padrinho/amigo. afinal tu estás habituado a ajudar à tua volta, só que na família, por vezes, os sentimentos baralham as soluções, mas pelo que dizes, foste igual a ti mesmo. Parabéns a todos.

pinguim disse...

Comovi-me muito com este teu texto, pois nele demonstras um enorme amor pela tua irmã; perdi recentemente a irmã que sempre esteve "mais perto" de mim e a dor foi enorme...
Folgo em saber que a complicada situação se resolveu a bem.
Abraço amigo.

Mad disse...

Bolas, que nunca saio deste blog igual ao que entro. Um grande beijo para ti, forte homem, e toda a felicidade do mundo (não é que mereças, que saio daqui com lágrimas nos olhos!).

msaosimao disse...

Estou muito contente, por estares novamente bem.A vida é muito complicada e por vezes ainda a complicamos mais, como vez tudo acabou em bem.Muita saúde para ti mana e rebento,um beijo da FIFI

Anónimo disse...

Adorei ver a forma como amas a tua irmã. Irmãos assim há poucos e tenho a certeza que ela sabe disso.