domingo, 17 de maio de 2009

Qual de nós, apesar da mágoa ou da humilhação, seria capaz de protagonizar uma tal excelência?

A frase não é minha, este convite à reflexão, fê-lo Rita Ferro numa entrada na Porta do Vento que podem ver aqui.

Danielle Mitterrand, viúva do presidente francês François Mitterrand, aparece no funeral do marido ao lado da amante do marido e da filha desta relação, sujeitando-se a duríssimas críticas. Como resposta, escreveu uma carta que põe o dedo na ferida e mostra que a moral pode muitas vezes ser amoral. Fala de sentimentos, de amor, da essência do que é o homem.

Pensei na pergunta, não tenho resposta. Não sei como reagiria numa situação destas. Se por um lado acredito num amor para a vida, por outro lado acredito na infinita capacidade de amar. Mas se há uma traição que magoa, é a traição dos sentimentos.

É preciso ter coragem para dizer : “Vi também que, como um homem sensível, poderia enamorar-se, encantar-se com outras pessoas, sem deixar de me amar”. Queremos ser o centro do universo, a razão do outro existir, num sentimento mesquinho e egoísta. Quando o amor é universal e se multiplica e se partilha.

A essência da carta, para mim, está neste parágrafo, duríssimo mas ainda assim de uma beleza aterradora: “Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo. É preciso admitir docemente que o ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém, e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente. Não somos o centro amorável do mundo do outro. É preciso aceitar também outros amores, que passam a fazer parte desse amor como mais uma gota d'água que se incorpora ao nosso lago.”

Hoje desiste-se com muita facilidade, ninguém tem tempo para construir continuamente, alimentar o amor e as relações desmoronam-se como edifícios abandonados. Tendemos a focar a nossa energia na mágoa e eventual humilhação da traição. Eventual, digo, porque não acredito que seja humilhante ser-se traído. Só o será se tivermos deixado a casa ao abandono e uma rajada de vento abriu a porta para que outros pudessem entrar.

Magoa-me ver no meu grupo de amigos como as relações vão ruindo como se as pessoas se tivessem esquecido do que sentiram um dia e porque um dia decidiram dizer sim. O amor evolui. Nas relações longas, o amor torna-se fraterno, um companheirismo único de quem se conhece até ao âmago. Não deixar o amor chegar aqui é não saber amar.

Como comentei nesta entrada não sei dizer como reagiria a uma situação destas. Não deixo, no entanto, de considerar o comportamento louvável e brilhante. Sempre pensei que uma traição de sentimentos me magoaria mais do que uma traição puramente física, por outro lado sei que há muitas formas diferentes de amar e que os amores evoluem. Negar o amor a alguém, filha ou amante, pai ou marido, é atacar uma capacidade única que temos, é amoralizar a moral, é negar a nossa essência humana, como o é o egoísmo de não sabermos partilhar. Ainda assim, magoa-me a traição dos sentimentos. Quando a Rita pergunta qual de nós, apesar da mágoa ou da humilhação, conseguiria protagonizar tal excelência, só consigo responder que não vejo a humilhação e acredito que a mágoa se desvaneça com o tempo.

7 comentários:

escarlate.due disse...

por um lado sei que a "raça humana" não é por natureza monogamica.
por outro lado, não entendo como traição o simples facto de existir uma 3ª pessoa, aliás já falei sobre isso num qualquer texto.
traição para mim é outra coisa, mas isso é apenas uma questão de conceito.
seja como for entendo que se pode amar de multiplas formas e também entendo que não somos donos de ninguém.
não vejo nada de estranho em pertmitir que alguém que amou quem nós amamos tenha o direito de se despedir do seu amado. e muito especialmente um filho. todo o filho tem o direito de amar o pai, tenha ele feito o quer que seja e ninguém tem o direito de o impedir de se manifestar como filho que é.

aí está algo que acontece por exemplo em casos de divorcio e que me faz uma confusão tremenda, porque o que termina é a relação conjugal e não a paternidade. isto é algo que devia entrar em algumas cabecinhas casmurras para bem das crianças

ana v. disse...

Excelente reflexão sobre um assunto polémico e eterno. Como já disse "lá em casa", acredito que muitas mais atitudes destas haveria se a sociedade não nos empurrasse para uma obrigatória pose de orgulho ferido, sob pena de sermos considerados amorais ou parvos. Na nossa essência cabem muitas formas de amar e a posse faz parte de uma delas, só uma. Aprende-se a amar com o tempo, com a maturidade, com o sofrimento e as alegrias de uma vida de tentativas. Com uma só ou muitas pessoas, isso depende. Por isso não posso concordar contigo quando dizes que quem não consegue conservar uma relação toda a vida não sabe amar. No resto, concordo: a humilhação está na pressão dos outros, não em nós próprios nem sequer nas circunstâncias.

Um beijo

Músico Guerreiro aka Melões disse...

Escarlate - concordo na essencia com o que dizes.

Ana - nao quis dizer que quem nao consegue conservar uma relacao a vida inteira nao sabe amar. Ha relacoes que acabam porque sim, e creio que ja todos tivemos experiencias dessas. Nao saber amar, ou melhor, nao amar, e desistir a primeira adversidade, esquecer com a primeira contrariedade porque e que escolhemos determinada pessoa. Acho que hoje se desiste com muita facilidade so isso e nao lutar por um amor, nao construir uma relacao dia a dia, acomodar-se, isso sim, e para mim nao saber amar.
Beijo

pinguim disse...

Duas considerações:
1. Desconhecia este facto que relatas e a carta que Danielle Miterrand escreveu; pressinto que não tivesse sido fácil, mas é belo o gesto e as palavras. Sem sombra de dúvida, magoa muito mais a traição dos sentimentos.

2. No meu caso pessoal, mantenho um "relacionamento" com um Amigo há quase 23 anos; houve uma evolução perfeitamente normal nesse relacionamento, que é hoje completamente diferente de quando nos conhecemos, mas continuamos a partilhar a casa e por assim dizer as nossas "duas vidas"; o sexo acabou há muito, nessa evolução há lugar agora a relacionamentos afectivos, bons e já algo duradouros com outros companheiros, mas tudo isso foi sempre conversado, nunca discutido e aceite em comum. O meu actual companheiro sempre este ao corrente desta nossa situação e o mesmo sucede com o seu companheiro; somos os maiores Amigos que cada um de nós tem e acho que continuamos a amar-nos, apenas...de forma diferente!
Abraço amigo.

Ck in UK disse...

Essa carta e arrepiante. Nao sei de facto que dizer. Mas concordo com o comentario em relacao aos que nos rodeiam.

F3lixP disse...

Pois, é muito difícil saber o que faria em tal situação de facto.
A situação do Pinguim é a mesma do meu namorado e acho interessante como chegaram a esse estado emocional com a outra pessoa, pessoalmente não me consigo ver a fazer o mesmo mas porque nunca vivi nada assim!

Belo texto o teu, dá que pensar!

AEnima disse...

Sou franca... acho que neste assunto tenho muito a aprender ainda. Acho que se calhar nao conseguiria ter tido esse gesto tao nobre. E viver o amor a longo prazo ainda me assusta muito. Talvez por isso ate hoje ainda nao me tivesse "prendido" a ninguem.

Mas ha muitos assuntos que ha uns anos atras julgaria que nao conseguiria aceitar e atraves de exemplos de gente "maior" que eu em sentimentos, fez-me mudar a perspectiva e evoluir para me tornar mais tolerante, abrangente e melhor. E este eh um dos exemplos que vai ficar comigo.

:D
Beijinho