sábado, 25 de julho de 2009

H1N1

Não é política desta minha casa falar dos assuntos da actualidade. É uma casa aberta a todos mas feita de opiniões, vivências, gostos e reflexões pessoais. Por tudo isto, e porque o autor se incomoda com sensacionalismos que se abatem muitas vezes sobre a nossa sociedade e amplamente discutidos nos mais variados meios de comunicação, a política escolhida.

Desta vez decidi falar da gripe. A famosa gripe que enche páginas de jornais e que, muitas vezes, ganha destaque de abertura nos noticiários dos países onde vivo e onde nasci.

Sigo com alguma atenção a progressão da doença em Portugal. Tenho muita gente querida nesse canto e interesso-me. Fico, no entanto, horrorizado e envergonhado com a reacção da maioria das pessoas do meu país. Basta ler as caixas de comentários dos jornais on-line.

Os portugueses em geral têm esta necessidade de acusar e mal dizer. Uma maledicência vergonhosa e ignorante que me incomoda e revolta.

Os comentários mais comuns são:

“Como nesta altura não há política nem futebol nem incêndios, há que encher as páginas dosjornais com a gripe.”

“Esta gripe só matou tantas pessoas, quantas morrem por ano com a gripe sazonal?”

“E as outras doenças bem piores como a infecção por HIV ou o cancro?”

Vamos por partes:

- Há mais uma doença que nos ameaça e é urgente educar. Tem baixa taxa de mortalidade mas tem-na. Mesmo que não a tivesse, devido à sua agressividade, pode levar a uma paralisação generalizada do país no pico da infecção com as devidas e nefastas consequências sócio-económicas, agravadas pela actual crise. Noticiar não é alarmar, não é criar um clima de medo. É educar, prevenir.

- É curioso o número de treinadores de bancada no nosso país. Tantos estatísticos. Conhecem os números e comentam-nos. Segundo noticiou a BBC o número de mortes no Reino Unido desde o início da epidemia é superior ao número de mortes por gripe sazonal e a infecção está agora a crescer exponencialmente neste país, principalmente entre pessoas com menos de catorze anos.

- Finalmente, quem compara esta doença com a infecção pelo HIV ou com o cancro é estúpido. Perdeu o cérebro nalgum lado e não sabem bem onde para o ir buscar. Aprenda a pensar antes de falar. O cancro não é sequer uma doença contagiosa, há prevenção bem divulgada, o sol, o fumo, comer vegetais, mas acima de tudo conhecer bem o corpo para identificar cedo a doença. Quanto ao HIV, doença contagiosa, é prevenível pela gente saudável tomando as devidas precauções e evitando comportamentos de risco, dificilmente a doença se espalha e o meu país distribui gratuitamente preservativos e seringas bem como paga os tratamentos na totalidade. Resta-nos a gripe, esta que podemos apanhar em qualquer lado por onde andamos e em tudo o que tocamos. Mata menos? Ainda bem! mas mata. E as mortes, os seus números, não se comparam. Uma morte vale uma vida e a vida não tem valor, assim sendo, uma morte vale tanto como muitas mortes. Se não acreditam, perguntem-no a um pai que perdeu um filho.

Imagino que o facto da incidência da gripe ser baixa em Portugal leva a este tipo de pensamentos e julgamentos. Estúpidos, tacanhos, vergonhosos. Aqui nesta terra que me acolhe não há paranóia. As pessoas ouvem e acolhem. Ainda assim o vírus espalha-se. Chegou ao escritório. Num dos andares a incidência é tão alta que o fecharam e os meus colegas estão em quarentena. Tenho um amigo nesse andar que contraiu a gripe e felizmente se curou sem recorrer a medicação ao fim de três dias.

Mas sinto a preocupação nos meus colegas que têm filhos pequenos ou adolescentes porque é neste grupo que tem havido mortes de pessoas saudáveis. Querem evitar a infecção, não por eles mas pelos filhos.

E eu, mais por eles do que por mim, sigo as notícias com atenção. Não conseguiria viver comigo se me soubesse responsável pela morte de uma única pessoa por não saber prevenir.

Se tudo não passar de um susto, pelo menos que fiquem os hábitos de higiene para a gripe sazonal. A maioria das doenças que desapareceram, desapareceram porque se mudaram hábitos. Em Portugal, há primeiro que mudar as mentalidades.

6 comentários:

Teresa disse...

Subscrevo inteiramente.

Neste momento, estou bem mais exposta a um possível contágio, porque passei a ir de transportes públicos para o Colosso, quando nos tiraram o estacionamento. A primeira coisa que faço quando chego ao gabinete, de pois de pousar a carteira, é ir à casa de banho lavar as mãos. Com sabão azul e branco, que agora está em todas as casas de banho daquele edifício gigantesco. Cá em casa também já há, mesmo não ficando nada bonito no lavatório.

Há duas semanas tive um jantar com as amigas do Liceu. A Vanda, que é médica radiologista (e uma das pessoas mais inteligentes que conheço) declarou peremptoriamente que sabia que ia ter a gripe. Está demasiado exposta, manda os pacientes respirarem fundo... e eles tossem-lhe acto contínuo na cara. Passou a dizer "Vire-se para a parede e respire fundo", mas não serve de muito.

Espera por Setembro e Outubro, se queres ver os números a subirem em flecha em Portugal. Tenho todo o cuidado possível. Mesmo assim, é bem possível que venha a ser contagiada.

Nem imaginas como o teu caso me impressionou há dias, até li alto à minha colega de gabinete. Um andar de quarentena...

Isto é sério, muito sério. E vai apenas no início, infelizmente. Até pode vir a superar a terrível pneumónica do princípio do século XX, que matou coisa de 60 milhões de pessoas.

Grande beijo. TAKE CARE.

geocrusoe disse...

Não gosto da forma como os OCS têm falado da Gripe A, mas concordo que devem falar dela, aliás porque além de tudo indicar que se tornará numa pandemia, existe ainda a possibilidade de mutação do virus com efeitos ainda não conhecidos.
coloquei no meu blog o número de telefone para apoiar nos açores estes casos (pois o número não é o mesmo da Linha 24 no continente) e há lá um link para um técnico que me parece falar com as credenciais que estes caso exige.

http://jvcosta.planetaclix.pt/gripe.html

Já agora, uma informação gratuita, duas gerações atrás houve um familiar que morreu de gripe espanhola e o nome ficou na família para memória, esse tio avô hoje vive no meu nome. carlos ERNESTO, que nada tem a ver com oscar wilde.

pinguim disse...

Claro que este vírus deve ser falado e todos devemos saber os procedimentos que devemos tomar quanto à prevenção e ao eventual contágio; o número de casos vai ser assustador, mas também não devemos ficar demasiado preocupados pois embora mate, este vírus, devidamente tratado, ao fim de meia dúzia de dias aborrecidos por um isolamento que é sempre chato, as pessoas voltam a fazer a sua vida normal; os alarmismos exagerados não são benéficos e a nível governamental, parece-me que tem sido notável o trabalho do Ministério da Saúde, a começar na própria ministra, Ana Jorge.
Outra coisa que devia ser mais difundida, é a quantidade de casos existentes num dado momento, em detrimento do número de pessoas que já o contraíram; dizer que há 200 pessoas já atingidas, não é dizer que há 200 pessoas com a gripe actualmente...
Abraço.

Teresa disse...

P.S. Para os mais novos, que talvez nunca tenham ouvido falar dela: a pneumónica de que eu falei é a gripe espanhola que o Geocrusoe referiu. É a mesmíssima doença, conhecida pelos dois nomes, e matou milhões.
Vi há tempos no canal História um impressionante documentário sobre ela.

caos disse...

Eu concordo que de facto em Portugal há que mudar mentalidades, educar. No entanto, acho que as notícias da gripe, alarmam bem mais do que educam efectivamente. Na minha opinião, o horário nobre da TV deveria ser mais utilizado para difundir informações como as da gripe ou as da separação do lixo e da importância da reciclagem, por exemplo. Há questões que têm que ser levadas a sério. Isso sim. Em vez das toneladas de telenovelas e afins que por cá passam. De qualquer modo, não tenho nada contra as telenovelas, tenho sim contra o exagero. Esse exagero que passa mesmo pelas notícias da gripe A...

AEnima disse...

Acho que ainda nao me tinha apercebido do alarmismo que existe em Portugal com estas doenca. Aqui e' realmente aceite muito naturalmente. Ha mortes sim, mas geralmente de pessoas com os seus sistemas imunitarios ja muito debilitados por outras doencas.

No estamine conheco 3 casos (sao muito pouquinhas as pessoas que conehco ainda... ehhehehehehe). Dois deles curaram com uma semana em casa e paracetamol, o outro ainda esta a cura-la, mas ninguem lhes receitou nada de especial. Ja nem sequer testam para ver se eh o virus: se se desenvolve em poucas horas, assumem que o e' e mandm uma pessoa ficar em casa sem sair 7 dias.

Em pt qdo souberam disto entraram em panico.. ja tenho uma mae toda nervosa a mandar-me comprar mantimentos para 8 dias pq se fico doente nao posso ir ao supermercado... "E nao me enerves a dizer que nao fazes isso que enervada ja ando eu aqui cheia de preocupacoes contigo, com a tua avo, com o vizinho, com o primo do amigo, com o marido da tia, com... " Filmes... Nao tenho paciencia para isto, juro. Acabo por perder a cabeca e responder torto qdo nao merecem. Raios.