segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Cinco de Outubro


Há noventa e nove anos o meu país fez uma revolução. Decidiu que um regime monárquico não lhe servia e escolheu a república. Mudança difícil e violenta, desgoverno constante e falta de visão moral e social, como um adolescente que descobre um mundo novo à sua frente, a primeira república saiu-se mal e acabou por se derrubar também fruto de incompetência, interesses pessoais e divergências internas.

Abriu caminho à ditadura militar e ao Estado Novo e a quase meio século de “Deus, Pátria e Família”. Anos de forte crescimento económico, desenvolvimento sustentado, infra-estructuras, saúde e educação, foram também anos de fim de liberdades, de perseguição, anti-partidarismo, e uma guerra que defendia o que já era indefensável.

Dizendo chega, o país entrou outra vez num ciclo de desgovernos, rápida delapidação dos cofres do estado e crescimento da pobreza, apaziguados década e meia mais tarde com os fundos que chegavam de fora e com a primeira estabilidade governativa após o Estado Novo.

Findos os fundos, instala-se a crise que vai muito além da económica. Crise política, social e moral de um país velho mas que ainda não sabe nem se deixa governar.

Um feriado que celebra muitos ideais e só ideais. Uma celebração de quase um século de mediocridade governativa de um povo que então se sentava no café a jogar às damas (às damas! nem sequer xadrez) ou à soleira da porta a falar do tempo e que hoje se passeia em centros comerciais ou se senta a ver a bola.

É isto que celebramos.


PS – e não sou monárquico! O que diria se o fosse.

1 comentário:

pinguim disse...

Um texto que retrata a realidade da política portuguesa nos últimos 100 anos; o que me assusta é que o crescimento e o desenvolvimento sustentado só aconteçam em ditadura...
Será que o povo português é masoquista?
abraço.