sábado, 24 de janeiro de 2009

Porque hoje é 24 de Janeiro

O tempo voa. Hoje é o dia. Outra vez. De tudo o que celebro, este é o dia. Seis anos... olho para mim e digo seis anos.

Olho-me ao espelho, páro e olho-me ao espelho. Fecho os olhos e vejo-me ao espelho. Admiro a minha figura, passo as mãos pelo cabelo e sinto a minha pele macia.

Sorrio.

Aos poucos aprendi a viver com este dia sem me sentir culpado. Ainda me pergunto porquê, se bem que me vou encontrando com o tempo.

Vejo-me, os meus olhos vêem outra vez. As minhas mãos sentem-se e sentem o meu corpo são. Os meus olhos não vêem os ossos a perfurar a pele ou assustam-se resignados com o cabelo que desaparece pelo ralo da banheira. Brilham, brilham outra vez.

Curiosamente, já só eu me lembro deste dia que é meu. Lembro-me dos telefonemas, da visita, lembro-me de um fim-de-semana em Ponte de Lima, de ouvir as conversas dos amigos na sala, quando tentava descansar.

Ainda vejo o olhar deles que fazia que não via, vejo o olhar dos meus pais... o que me custava o olhar dos meus pais. Lembro-me da vida frenética que levava para não estar com ninguém tempo suficiente e de ouvir a minha mãe, sempre que saía de casa, dizer-me descansa, o meu pai com um brilho triste nos olhos, eu dentro do carro em frente ao Douro ou ao Atlântico a ouvir música para não ver os olhares que me lembravam o que era.

O concerto na Sé velha de Braga que cancelei minutos antes porque não podia mais.

Vejo o olhar da Dr.a R. quando chego a Coimbra, o olhar diferente e aberto num sorriso feliz passado uns dias. Os estudantes a olharem para mim como se fosse uma ave rara.

Vejo o cabelo a crescer forte outra vez, encaracolado, a carne a preencher os espaço entre os ossos e a pele, as chagas a fecharem e a desaparecerem, conheço o que é estar sem dor outra vez.
Vejo tudo isto enquanto olho o espelho de olhos fechados.

Vejo-me finalmente no restaurante de Madrid, ouço o telefone que toca constantemente e lembro-me do Dr. R., da voz dele, da confirmação.

É 24 de Janeiro. Pergunto-me porquê e uma alegria imensa que me aquece num dia frio de Inverno invade-me e celebro-me.

Poderá ser um dia esquecido por todos os que me acompanharam no Longo Inverno, é o meu dia.

É o dia que faz o meu mote, que me diz que tudo é possível ainda que nos digam que não.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O instante infinito

Estamos no mês que não tem fim. Um mês longo em que o tempo se torna quase infinito.

É um mês de trinta e um dias como muitos outros, mas a ressaca da correria de dezembro, o retomar as rotinas, as poucas horas de sol, o tempo pouco convidativo e uma magra carteira fazem deste mês o mês mais longo do ano.

Apesar de ser um mês que se arrasta é um mês que me fascina. Tenho tempo de me sentar no sofá ou na mesa do café a devorar livros que esperavam pacientemente ser descobertos. Consigo ouvir discos parados na estante que me olham das suas caixas de plástico sem dizer que emoções guardam dentro. Posso embrulhar-me em sonhos e planos, estender a imaginação nas páginas ainda em branco do meu caderno preto e pintar as pautas ainda vazias com sons que se formam dentro de mim.

Penso nas pessoas com quem estive, com quem queria estar e naquelas com quem já não posso contar. Estudo o ano que passou e os anteriores, sorrio com as recordações boas, revolto-me com as injustas e aperto-me e encolho-me com as más.

Estamos no mês que não tem fim. Um mês longo em que o tempo se torna quase infinito.

Descubro-me.

Aponto-me os sonhos por cumprir e felicito-me pelos cumpridos.

É tempo de sonhar outra vez até que a rotina devore os sonhos e torne o tempo finito.

Mas o tempo é ainda infinito, como infinito é cada instante e quando um instante é infinito os sonhos são possíveis. Todos.

E o meu sonho, o meu grande e possível sonho é o fim definitivo do longo inverno, porque sim, porque estamos quase lá. É ver os meus meninos a correr no parque porque o inverno acabou e chegou a eterna primavera, porque estamos quase lá.

Depois do sonho possível, o provável. O amor, a vida a dois, a partilha das pequenas e das grandes coisas numa vida que renasce e se constrói a cada dia que passa.

Finalmente o sonho que é só sonho. O sonho da história que me chegou numa das recentes leituras e que amplio, que estendo e faço meu. O sonho da história de um país distante, o país onde os homens queriam ser mulheres e onde as mulheres queriam ser homens. O país onde os homens se transformavam em mulheres e as mulheres se transformavam em homens. E os homens que eram mulheres queriam ser mulheres e as mulheres que eram homens queriam ser homens. E os homens queriam ser mulheres que queriam ser homens que queriam ser mulheres...

O país onde os pretos queriam ser brancos e os brancos queriam ser pretos. O país onde os pretos se transformavam em brancos e os brancos se tranformavam em pretos. E os pretos que eram brancos queriam ser brancos e os brancos que eram pretos queriam ser pretos. E os pretos queriam ser brancos que queriam ser pretos que queriam ser brancos...

O país onde os cristãos queriam ser judeus, os judeus queriam ser muçulmanos e os muçulmanos queriam ser cristãos. O país onde os cristãos se transformavam em judeus, os judeus se transformavam em muçulmanos e os muçulmanos se transformavam em cristãos. E os judeus que eram cristãos queriam ser muçulmanos e os muçulmanos que eram judeus queriam ser cristãos e os cristãos que eram muçulmanos queriam ser judeus. E os cristãos queriam ser judeus que queriam ser muçulmanos que queriam ser cristãos que queriam ser judeus que queriam ser muçulmanos...

Nesse país distante deixou de haver homens e mulheres, pretos e brancos, cristãos, judeus e muçulmanos e passou a haver pessoas, só pessoas que se podiam amar em cada instante. E cada instante é infinito e assim os sonhos são possíveis.

Estamos no mês que não tem fim. Um mês longo em que o tempo se torna quase infinito, como infinito é cada instante e quando um instante é infinito todos os sonhos são possíveis.



Bibo no Aozora - Ryuichi Sakamoto

domingo, 11 de janeiro de 2009

2009

Viva!

Antes de mais (se bem que com alguns dias de atraso) quero desejar-vos um ano bom.

Não responder-vos a mensagens, comentários e emails não é falta de respeito ou consideração. Tenho uma estima muito grande pelas pessoas que perdem tempo a ler-me e que só me conhecem através das palavras. As palavras sem cara são como os sentimentos. Não há materialidade ou materialismo. Valem o que valem dependendo de quem as lê ou escreve sem se regerem por uma lei de mercado que perverte o significado das coisas.

Conhecer as pessoas, conhecê-las bem, é ir bem além do invólucro em que cada uma está metida, o corpo. A matéria distrai e corrompe e, ainda assim, dita as regras do mundo moderno.

Mesmo neste mundo virtual, tratamos de dar uma imagem num mundo em que a imagem ainda vale mais do que as palavras. Perdemos horas com as cores, os “links”, o tipo de fonte e o tamanho. Escolhemos fotografias cuidadosamente para ilustrar o texto e assim tiramos-lhe a liberdade de correr para onde quer e para onde a imaginação e interpretação de cada um de vós o quer levar.

O ano não começa bem, dizem por aí. Augura-se um ano de crise, sem dinheiro, sem emprego, sem matéria.

As nossas dores de cabeça, preocupações, centram-se à volta do que podemos perder. A matéria.
Assim, com o foco descentralizado, deixamos passar oportunidades e de lutar pelo que vale a pena. A famosa crise que se estende das finanças ao consumo, consome-nos a todos e as discussões aumentam por questões materiais. Instala-se a instabilidade social e crescem as demonstrações violentas e em último caso as guerras (que não são de valores mas de matéria).

O mundo está de ressaca, a heroína é a matéria e a ressaca desta vez afecta todos, ricos e pobres, homens e mulheres, novos e velhos.

Não tenho medo desta crise ou deste ano. Acredito que será um ano bastante positivo porque as prioridades vão mudar. O mundo, como o conhecemos, tem de mudar.

Enquanto muitas tensões vão aumentar devido à diminuição de riqueza e enquanto muita gente não conseguir dar o salto da matéria à “imatéria”, outros haverá que estarão lá.

Obriga-se o renascer do sentido comunitário, da vida em comunidade, porque um indivíduo só está bem e feliz se a comunidade onde se insere está bem e feliz.

É preciso ouvir as palavras, estender as mãos para dar e receber e, em conjunto, encontrar um equilíbrio de matéria e sentimento.

Acredito que depois desta virulenta crise da qual somos todos responsáveis e da qual ainda não vemos o fim, viveremos num mundo melhor. Descobrimos que não precisamos de tanto para viver mas que precisamos muito das pessoas, não das que vemos mas das que estão para além dos corpos que vemos.

Por isso, a vós de quem só conheço as palavras, desejo um ano bom, que mais do que um ano novo é o fim de uma década. Uma década de guerra suja que apesar de nunca ter tido nome é uma guerra mundial visto nenhum continente se ter livrado de ataques e do mundo se ter dividido em dois, sem fronteiras e sem países.

Que saibamos também na nossa casa acabar com esta guerra... não importa a tampa da sanita, a posse do comando, importa saber porque estamos juntos e ouvir, ouvir as palavras e deixá-las fluir, porque se não acabamos com as guerras em casa com aqueles que amamos, como podemos esperar o fim da guerra entre aqueles que mal se conhecem?

E se um dia decidimos que nos devemos por cara, se não for num restaurante chique da capital ou num bar da moda, que seja numa praia ou numa mata porque se a matéria não estiver lá, estarão as palavras e as tais pessoas que vão muito mais além da imagem.