sexta-feira, 13 de março de 2009

Procura-se gargalhada!

(e já agora bem sonora)


Alguém faz-me o favor de pedir à malta do estaminé que ria um bocadinho? Ou então que se cale e não diga nada.Já cheguei à fase de responder torto a toda a gente, mais uns dias assim e passo à fase de morder.

Quando alguém vem ter comigo é para dizer mal deste ou daquele, queixar-se da situação miserável, de não haver aumentos nem bónus, ou no caso de haver bónus, este ser pago em três prestações anuais a começar em Junho de 2010.

Afinal esta gente não raciocina muito melhor do que os anormais que se juntam à porta.

Ó meus anormais, o que é que vocês querem? Não estão satisfeitos com o trabalho? Azarito! Que dirão os outros que engrossam as filas dos centros de emprego? Não tiveram aumento nem bónus? Azarito! E que tal se o estaminé obrigasse a devolver dinheiro já que perdeu biliões de libras este ano e os bónus são distribuições de resultados? Não gostam do chefe? Azarito! Pelo menos têm um.

Agora, se me fazem o favor, desamparem-me a loja que, como diz a Mad, juro que tenho mais que fazer.

Se pelo contrário quiserem ir a um cinemita, um concerto, tomar um copo, apareçam!

E os que me lêem de longe são sempre convidados a deixar-me aqui uma anedota, afinal, o que eu preciso é de quem me faça rir.

E como amanhã é a Moda Lisboa aqui fica um pequeno apontamento.



quarta-feira, 11 de março de 2009

Onze de Março

A manhã acordou com sol mas acordou cinzenta e cansada.

Os ânimos acordaram baixos e foi necessário encontrar uma razão para sair de casa, entrar num metro cheio e caminhar para o trabalho.

As energias faltavam e com uma força hercúlea venci a desilusão e lancei ao vento os pensamentos que me engolem.

Mas o esforço foi em vão. Chegado, ao fazer uma visita ao blogue da cilinha vejo mais sofrimento e não consigo arranjar palavras, não aceito esta minha falta de palavras, não sei viver com ela.

E de repente, como uma bomba, reparo na data.

Onze de Março.

Hoje é dia Onze de Março. O dia em que o terror me passou à porta.

Passados cinco anos, sinto a mesma angústia e ouço o meu quarto estremecer com a violência da explosão. Revivo histórias que vivi na primeira pessoa, revivo o desespero daqueles com quem não conseguíamos falar, o silêncio que caiu na cidade cortado por sirenes de bombeiros e ambulâncias.

Sinto como se fosse hoje.

Vejo as filas de pessoas para dar sangue, as manifestações silenciosas e que força tem uma multidão em silêncio.

Vejo a dor e o sofrimento, a angústia e o desespero, ontem e hoje.

E ouço o grito de Madrid, o grito que me trespassa: “No está lloviendo, Madrid está llorando.”
E desço para chorar e acalmar a minha angústia.

Subindo de novo, recupero o meu texto do ano passado que copio aqui, pois é essa Madrid de amor que quero recordar, que me alivia a angústia e faz do meu dia um dia mais fácil.

“Passaram quatro anos. Quatro anos desde aquele amanhecer em que, de repente, a vida se quebrou, incapaz de suportar a dimensão de uma barbárie tão desusada.

Acordei antes do tempo, com a casa a tremer e o ruído das janelas. Pensei ser um sismo, mas depois do banho, quando comecei a ouvir as sirenes e vi como ambulâncias e carros de polícia desciam a Alfonso XII ou o Paseo del Prado, dei-me conta que algo mais sério se tinha passado.

Saí de casa e a cidade estava estranhamente calma e silenciosa. As ruas estavam desertas, a manhã fria.

Chegando ao escritório recebo o primeiro de dezenas de telefonemas. Fiquei a saber pelo meu pai o que se tinha passado, ali, a quinhentos metros de minha casa. Foi esse ruído que me acordou, o ruído da matança indiscriminada de quase duzentos inocentes que haviam madrugado para ir trabalhar. Duzentas pessoas que haviam embarcado em quatro combóios suburbanos, quase todas humildes, muitas imigrantes, todas inocentes.

Senti-me ferido. Madrid era uma cidade ferida e nessa cidade que tão bem me acolhera, também eu me sentia ferido.

Podia falar das angústias dos que não chegavam ao trabalho, dos telefones que não funcionavam, dos olhares assustados e da profunda tristeza. Mas não.

Este acto cobarde de meia dúzia, mostrou-me que para um acto mau, há milhares de actos bons.
As pessoas desciam ao lugar dos acidentes e não exitavam em rasgar as suas camisolas e casacos para parar o sangue que corria nesta Madrid ferida. Traziam de casa cobertores para aquecer aqueles que se esvaiam em sangue na manhã fria. Os cafés da zona ofereciam água, comida ou um chá quente aos feridos e aos que os ajudavam, incansáveis.

Por toda a cidade, filas gigantescas de anónimos que queriam dar sangue para mitigar a perda de sangue da cidade atacada.

Madrid, a cidade sempre em festa, estava silenciosa, triste, ferida na alma e no orgulho. A cidade sempre recebera bem e recebia este prémio. Mas mais do que nunca, a cidade da “fiesta” vestia-se de humanismo. Uma cidade viva, desinteressada, caridosa, uma cidade de amor.

Uma cidade que respondeu com amor a um ataque de ódio.

Juntei-me a esta cidade que não era minha. Vivi os ataques como não vivi nada na vida. Senti-me atacado, impotente mas rodeado de amor. Calei nos momentos de silêncio, e nunca estes haviam tido tanto significado.

Marchei pela paz num dia de chuva, eu, aquele que sempre evitara manifestações.

Uma marcha silenciosa com milhares de pessoas. Com todos os partidos políticos, com o príncipe herdeiro, com todos os chefes religiosos e com largos milhares de anónimos que desafiavam a chuva copiosa e faziam uma massa humana desde a Plaza Colón até a Atocha.

E não se sabe de onde, após uma marcha lenta e silenciosa sob uma chuva forte que caía sobre a multidão sem guarda chuvas, ouve-se a frase. Uma frase simples, mas que me mostrou o poder que uma frase dita em coro por uma multidão pode ter.

“No está lloviendo, Madrid está llorando!”

As lágrimas estariam disfarçadas pela chuva, a multidão, a dor, a chuva, as lágrimas, o amor, a cidade eram só um.

Um apelo à vida, para a vida e pela vida.

Porque nesse dia, para mim, Madrid era o mundo, a vida e o amor.”

domingo, 8 de março de 2009

Desabafo

Hoje falo de mim. Uma vez mais sento-me no café com o meu caderno preto. Olho as páginas em branco do meu caderno preto mas as palavras não vêm. São tantos os pensamentos baralhados com emoções que não consigo encontrar a ponta, o fio da meada, como o costumava fazer com a avó. Depois estendia-lhe os braços de menino e a lã acariciava-me os punhos porque tínhamos encontrado a ordem.

O caos chegou, instalou-se, não consigo ordená-lo, identificar o que sinto, expô-lo, e as páginas em branco do meu caderno preto recordam-me o que ainda tenho para dizer.

Queria ser capaz de escolher as palavras como a minha mãe me escolhe as melhores cerejas, arranjá-las como as castanhas que a minha mãe descasca e coloca com imenso amor no meu prato.

Queria ser um artesão de sentimentos para elevá-los à melhor arte, escolher a melhor matéria prima que tenho dentro de mim e transformar a pior em coisas belas; ser um oleiro de emoções, moldá-las e vê-las tomar forma e cozê-las no fogo lento que arde em mim.

Não consigo, não vejo mais além, assusto-me.

Neste baralhar dos pensamentos e nesta confusão das emoções o meu caderno preto tem ficado vazio. Pousado na mesa olha-me nos olhos e diz-me que tenho o trabalho de casa por fazer.

A melancolia instalou-se e cobre os sentimentos com um ténue manto de nevoeiro frio e húmido. Em casa sinto a companhia desta tristeza que ouço no silêncio, na rua sinto-me só, as palavras tornam-se rolhas que não querem sair pelo gargalo da minha garganta apertada.

Não sentia este aperto desde o Longo Inverno, o tempo sem futuro, o fim do caminho. Agora o caminho é incerto, sigo num comboio e não sei onde é o meu apeadeiro.

Tudo mudou, já nada é o mesmo. A paisagem torna-se turva e indecifrável com a estonteante velocidade. Os meus pilares vacilam e vacilando dois, vacilará o terceiro.

Uma semana e tudo será diferente, completamente diferente. Os comboios seguem sentidos contrários e não sei quando voltarão a encontrar-se no mesmo apeadeiro.

Há viagens que temos de fazer, não podia dizer não. Esse não sou eu mas mais instabilidade se instalou como se a viagem tivesse acelerado para lá do suportável.

Não sei se sou só eu. Acho que não mas é uma questão que pouco se discute, pouco exposta, íntima e ainda assim universal. Tudo está em constante mutação. Queremos sempre algo melhor. Colocamos a barreira cada vez mais alto e passamos a vida a preparar o salto só que nunca saltamos, ou se saltamos é porque nos estamos a preparar para o salto seguinte.

Se buscamos a perfeição absoluta e a felicidade eterna mas esta não existe, então porquê tanto esforço? Sou só eu quem quer que o mundo páre de rodar por uns instantes e me deixe ser em vez de estar? Porque este é o problema, estamos no mundo, não somos no mundo e enquanto estar significa continuidade finita o ser é um ponto infinito que abarca a origem e o fim e os une tornando a mudança numa caminhada estática que é e não está. A mudança cansa, esgota as energias que buscamos incansável e incessantemente.

Nascemos, vivemos, morremos.

Queremos, queremos? queremos ser imortais, pelo menos a ideia é-nos impregnada, vendida como o paraíso da felicidade eterna.

Ninguém nos conhece, ninguém sabe quem realmente somos. Somos passageiros na viagem que não conhecemos numa terra que não é redonda, o destino não é a partida, é a chegada, só a chegada, o fim.

Vêem-nos passar, outros passageiros noutros comboios, cruzamo-nos, vamos lado a lado, separamo-nos, chocamos, uma jornada que dura uma vida. Não nos lembramos quando embarcámos, não conhecemos o nosso apeadeiro. Sabemos que está mais adiante, sempre mais adiante. Muitos desejam uma viagem sem fim mas não entendem que uma viagem sem fim não faz sentido.

Porque há um fim, há uma razão para aproveitar a viagem, cada momento da viagem, apreender cada nova paisagem porque o que passou passou e o presente é passado e o futuro é passado.

O passado é nosso, só nosso. O presente é uma invenção, é um ponto que quando olhamos já é passado e faz parte de nós. O futuro, porquê contar com ele? Se existe será passado ou o comboio não chega e é uma ilusão.

Somos o passado. Reconhecemo-nos pelo passado. O que fizémos, como nos comportámos, como aproveitámos cada momento da viagem. Não entendo porque o ignoramos, não digo que devemos viver no passado, devemos viver do passado porque somos o ontem e não o amanhã.

Quantas vezes ansiamos o futuro e esquecemo-nos do presente que passado somos nós.

Se a viagem não tem fim de que valemos? Valeria a pena viajar? Saber que o que não se atingiu hoje se pode atingir amanhã ou depois? Saber que quando quisermos podemos revisitar os lugares por onde passámos mas que não vimos?

Será a eternidade o paraíso da felicidade eterna ou será a razão de toda a mediocridade? Não sabemos como acaba a viagem. Não sabemos se o comboio pára calmamente para que desçamos, se haverá um violento acidente, se alguém nos expulsa da viagem ou se nos atiramos borda fora. E não saber assusta. Assusta ainda mais saber que vamos perder outras paisagens, que não podemos regressar, ver outros viajantes, apreender o seu passado. Este é o medo que nos faz olhar pela janela, ver a paisagem, pôr a cabeça fora da janela e sentir o vento e os cheiros. É este o medo que nos faz viver mesmo que não saibamos que está ali, presente, que faz com que cada ponto do nosso passado faça sentido, um conjunto infinito de pontos na duração da viagem porque cada momento é infinito e sempre divisível até chegar ao nada, afinal cada ponto presente não é nada mas todos juntos fazem a viagem. A viagem que faz sentido porque tem fim, sem fim viveríamos mortos, o fim faz-nos pulsar a cada ponto por onde passamos, os pontos infinitos do presente que juntos fazem o passado, nos constroem e nos tornam imortais. Imortais porque a viagem tem fim. Imortais na mortalidade.



Adagio for Strings - Samuel Barber