quarta-feira, 29 de abril de 2009

...

Palavras leva-as o vento. Pensamentos também. É preciso agir, fazer. A chamada à realidade é presente, aqui, agora.

Sim, podemos afundar-nos num mundo de mágoa mas isso não nos leva a lado nenhum. Fechados num egoísmo surdo, ignoramos a chamada.

Está sol, vem aí uma criança, está quase! A mão estendida está à nossa frente, à esquerda, à direita, atrás de nós para nos amparar na queda, uma floresta de mãos que vêm não se sabe de onde e afastam aquelas que nos empurram. Uma floresta que floresce nesta primavera em que o vento tenta afastar os pensamentos. Pensamentos são só isso, pensamentos.

Embriagado pelos fantasmas guardados no peito, perdemos a percepção das coisas. Não ouvimos a chamada. Queixumes são inúteis, são palavras que como pensamentos, leva-os o vento.

O corpo ressente-se das horas sem dormir, o coração dispara, acelera arritmadamente e a visão desvanece-se, mais uma vez esvai-se. Então a chamada agudiza-se, torna-se omnipresente e impossível de ignorar. Idiota! Fechado em problemas que existem dentro de ti, que te enviesam o olhar de forma a que vejas o que queres, o que dizes que não queres. Idiota, não te queixes! Onde está esse guerreiro, afinal?

A cidade à noite, mais escura, porque o corpo se recusa a ver, obriga a abrir os outros sentidos. Já me conheço bem, estar ali, no meio de outra gente, leva-me a relativizar tudo e vejo o guerreiro acordar. Esqueço-me do mal que me afecta, falo, estendo a mão que não é mais do que estender-me a mão.

Acredito! A bondade das pessoas que desconheço, a entrega, o despreendimento, as chamadas que ficaram por atender, as mensagens que ficaram por responder... A visão regressa e cada vez mais me convenço do poder destrutivo ou construtivo dos pensamentos. Cada vez mais acredito que ao querer muito, ao desejar o impossível, este se torna passível de se tornar real.

E o que é real é que o mundo é belo e tenho todo o direito de ser feliz. Com distância, com problemas, mas sobretudo com amigos e amor. Tenho o direito de ser feliz, nem que dure um só instante.

Adagio

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cafés


Decidi reduzir a quantidade de café que bebo por dia... sim, ia numa conta extraordinária de catorze shots e reduzi drasticamente para quatro.

Efeitos secundários:
1 - Subiu a tensão, historicamente muito baixa, passou a baixa;
2 - O estômago está a queixar-se;
3 – Perdi o sono.

Pois, eu que dormia tão bem, sem acordar uma única vez, não preguei o olho toda a noite. Aproveitei para pôr a leitura em dia, arrumei a casa que estava que metia dó, quando dei por mim, estava sol e saí de casa para vir ao estaminé.
Entretanto começou a chover e ao chegar o fim do dia ainda me sinto sem sono.

Alguém me explica?

domingo, 26 de abril de 2009

Desabafo

Os dias estão mais longos, brilha o sol e as árvores recuperaram o verde da esperança. Inicia-se um novo ciclo, Primavera. As esplanadas da grande metrópole enchem-se de gente que vive desesperadamente em busca de um raio de sol.

Gostava de sentir o mesmo anseio, a primavera esgota-me. O cansaço abate-se sobre mim e a saúde estremece.

Sinto-me mais vazio, a distância aumenta a desilusão e a solidão aparece de mansinho para instalar-se dentro de mim que vejo no brilho do sol o escárnio de quem comanda a vida.

Fecho-me na minha toca, qual lobo solitário, e alimento-me de esperanças perdidas. Sei que há um mundo lá fora e anseio por ele, digo que sim, que o quero porque sei que me faz bem mas o lobo vence e sem razão aparente, não digo nada e deixo-me ficar fechado em casa entregue aos pensamentos. Ainda ontem o fiz e farei amanhã e depois, e quando o faço o aperto aumenta e a solidão torna-se infinita.

Os amigos não estão lá para sempre. Se não respondemos à chamada, marcam-nos falta até ao dia em que não passamos e deixamos de fazer parte da chamada.

É talvez a ressaca dos dias cheios de emoções, de ser com letra grande e de estar com aqueles que me amam. Sabê-los longe e perder contactos com a vida. Talvez seja a desilusão da traição de quem recebêmos em casa ou perder momentos únicos na vida da nossa vida.

Vem aí uma nova vida, espero ansioso a chamada e a espera lembra-me que não estou. Olho a casa em desalinho, reflexo do desalinho dos meus sentimentos. Quero chorar para aliviar a pressão mas as lágrimas, como eu, não respondem à chamada.

Cada manhã, nova luta. Não encontro motivos que me façam querer sair de casa e passo o dia à espera do toque de saída. No que resta dos dias agora mais longos, penso, penso, penso. É a distância, a nova vida, os que me esperam em vão, quem reclama a minha presença e os que me dizem: volta, precisamos de ti.

Mais do que triste, estou vazio. Preciso daquele empurrão para me fazer sair da letargia em que me encontro porque sei que quando saio, me encontro. Renasço, brinco, falo.

Digo-me desiludido com a grande metrópole, com quem me traiu. Iludo-me. Na verdade estou desiludido comigo porque não consigo deixar que a primavera entre em mim. Nesta desilusão fecho a porta, deito-me e adormeço porque enquanto durmo, o mundo que anseio e evito não existe.

sábado, 25 de abril de 2009

Liberdade

Os meus blogues, para o mais observador, são alimentados aos fins-de semana. Sábado ou domingo não interessa, um ou outro também não, estando em Londres, saio de casa para tomar o pequeno-almoço com o meu caderno preto, sento-me no café e o que sair, saiu. Se é alguma experiência, vivência, reflexão, cai aqui, senão cai ali ao lado onde a ficção se faz realidade.

Não estando em Londres não há entradas. Como não há se recebo alguém. Os meus cantos preenchem o vazio das manhãs de fim-de-semana antes de sair para visitar os meus meninos e assim também os fins-de-semana acabam por se tornar rotina.

A rotina não tem de ser má desde que não seja acomodada. Cria disciplina e faz-nos aproveitar momentos em que, de outra forma, estaríamos sentados no sofá, preguiçosos, a desperdiçar o tempo que é tão escasso.

Como já repararam hoje estou sem imaginação. Normalmente quando abro o caderno preto, as palavras saem-me, jorram sem ter de pensar muito. Hoje não.

Pensei falar da liberdade, do dia que hoje se celebra, mas, vá lá, crucifiquem-me, o dia não me diz grande coisa. Sou daquela geração que nasceu pós-revolução, e depois?

Só sei como era antes pelas histórias que ouvi em casa: o meu pai foi perseguido quando era estudante por fazer um comentário num café da baixa do Porto; foi dois anos para a guerra em Moçambique; o meu avô foi interrogado quando não foi votar porque recebeu o boletim de voto com a cruz já marcada. Mas o meu pai, pós revolução, teve de sair do local de trabalho na mala do carro ante a fúria dos que antes eram companheiros leais e o meu avô viu-se obrigado a dividir a família para que não lhe ocupassem as casas e ainda assim, aqueles que um dia ajudou lhe queimaram uma das casas, a ele, cujo pai fundou os bombeiros da vila, que abriu e parcialmente financiou o lar de terceira idade, que pagou do seu bolso o serviço de sangue no único hospital da terra.

Sim, o meu avô nunca teve a liberdade de não ser julgado, talvez porque julgava os outros, mas sempre teve a liberdade de pensar.

Pensando não votava quando lhe aparecia o boletim com a cruz e aguentou interrogatórios e quase perdeu o posto de trabalho, mas depois, o respeitável juíz virou o monstro. Para que quer o senhor as casas? As vinhas? A terra a quem a trabalha – e eu que nunca vi o meu avô com medo da enxada e ninguém conhecia a vinha tão bem como ele.

Ganhámos a liberdade! Ainda bem, respeito-a e dou-lhe valor. Não sei o que seria viver sem liberdade nem gostaria de viver sem ela. Mas a minha liberdade deixa-me ficar indiferente a este dia. O passado, passou. As promessas de Abril ficaram na gaveta. O regime mudou, as pessoas não. Vivem no Abril de há trinta e cinco anos, sentadas no sofá sem aproveitar o tempo.

Ainda que me tirem todas as liberdades, a de pensar pela minha cabeça ninguém ma tira. Não sou pós Abril. Não sou anti Abril. Vivo hoje e não me interessa se há uma praça com o nome Salazar ou uma ponte com o nome 25 de Abril. Pois será isso, não sou fascista nem comunista e irrita-me a celebração de um dia que fez com que uma nação inteira tenha ficado sentada no sofá durante décadas enquanto engole novelas e futebol.

Cada um usa a liberdade como quer e a minha é fazer, tal como o avô me ensinou, ainda que me torne num peixe fora de água.


PS – apesar de achar belíssima a música de intervenção, escolho esta. Afinal o povo é manso. Não ordena e a fraternidade é claramente mais rara do que a que havia há trinta e cinco anos atrás. Esta aproxima-se mais do meu conceito de liberdade.

sábado, 18 de abril de 2009

É tudo uma questão de perspectiva

Não consigo deixar de pensar nos meus amigos. Estes têm sido dias duros para muitos deles.

Quatro amigos e todos próximos, daqueles com quem falamos quase todos os dias, passam por momentos muito difíceis. Uma amiga perdeu a mãe, outra o irmão, um amigo tem a mãe nos cuidados intensivos e a amiga de todos os dias não está cá porque o pai precisa dela.

Tenho uma relação próxima com a morte e com a doença. Não me assustam, as minhas. Vivi demasiado perto desta realidade que a absorvi e aprendi a viver com ela. No entanto excluí-me do grupo daqueles que um dia perdem um pai, uma mãe ou um irmão. Eu iria primeiro e por isso nunca passaria por tal dor. Não me preparei, como se preparar fosse possível, mas imagino que a maioria das pessoas pensa eventualmente nesta situação e cria defesas que não funcionam quando se vêem confrontadas com um evento destes. Eu não, sempre acreditei que ia antes.

Anos passados, com a sorte do meu lado, vejo o sofrimento dos meus amigos como um sinal, uma chamada à realidade. E se fosse eu a estar no lugar deles? Como reagiria? Não sei, a ideia peturba-me e quero apartá-la. Cada dor é diferente e única por isso o exercício é inútil, só cria amargura e tristeza e não me fará entender a dor que atinge aqueles de quem eu gosto.

Bem lá no alto da minha pirâmide de afectos estão os meus pais e a minha irmã. Não consigo evitá-lo. Sempre fui muito amado, protegido, apoiado incondicionalmente. Qual dos três gosto mais? Não sei, não sei mesmo, não é a resposta politicamente correcta. Nos três vejo um, o meu núcleo, a minha vida. São amores diferentes, incomparáveis, únicos. O amor de uma família sagrada. Da mãe o amor que educa e protege; do pai o amor que ensina e defende; da irmã o amor que partilha e apoia.

Quando há alguma novidade ou problema sou o primeiro a quem falam. Gostam das minhas opiniões, dos meus conselhos apesar de ter sido deles que aprendi a discernir. Admiram a minha forma de pensar, a minha abertura, os meus fundamentos e a minha compreensão mas foram eles que me fizeram assim.

Olho para os meus amigos, olho para a minha família. Não sei o que dizer. Perturba-me a ideia. Não faz sentido.

Como diz a amiga de todos os dias, voltamos ao ABC da vida e todo o resto deixa de ser importante. É tudo uma questão de perspectiva. Somos assim por eles e para eles. Devemos-lhes a vida e o amor que sentimos.

Amigos, estou aqui, não sei tirar-vos a dor, consolar-vos no que não tem consolo. Posso dar-vos a minha mão, não para tornar o caminho mais fácil mas, quem sabe, mais suportável.

U e L podeis não ver o vosso núcleo. Não está à vossa frente mas dentro de vós, nos vossos genes, nos vossos actos, nos vossos pensamentos, no vosso amor.

S e C não imagino o que é ver quem somos assim diante de nós. O amor move montanhas e vós estais cheios dele. Posso pedir-vos um favor? Não percais o vosso sorriso. O sorriso é a porta da esperança e se os vossos vêem o vosso sorriso e a vossa esperança têm mais força para lutar.

A última palavra vai para o meu núcleo. O ABC da vida diz-me que tem de ser. Escrevo muito sobre ele mas nunca o digo.
Amo-vos!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

De volta à ilha

Estou de volta à ilha.
Como sempre foi uma semana cheia apesar de se ter alongado graças à nossa querida Portugália que decidiu dar-me mais um dia de férias.

Como todos os anos, procurámos uma esplanada para uma brilhante tarde de quinta-feira santa. Lá ficámos pelo Peter’s café que abriu na Ribeira, rendidos ao gin tónico enquanto chovia a cântaros lá fora.

Houve também os concertos de semana santa. Este ano, para comemorar os 2000 anos de São Paulo e os 200 anos do nascimento de Mendelssohn, tive o prazer de ouvir uma Oratória para mim desconhecida. Paulus. Das oratórias de Mendelssohn só conhecia a grande “Elias” mas “Paulus”, quase nunca feita em concerto na íntegra, é uma delícia de obra que subverte muitas vezes a tradicional forma de representar o narrador (normalmente tenor mas nesta obra a soprano) ou Deus (normalmente o baixo, mas nesta obra os naipes femininos do coro). O texto é a vida de São Paulo, o Santo correligionário que perseguia os cristãos (exemplo disso é o martírio de Santo Estevão) que conseguiu a redenção através da conversão e martírio. Como família recentemente convertida ao Cristianismo do Judaísmo, esta obra é para Mendelssohn (patrocinada pelo seu pai) uma autobiografia e muito pessoal recordando ainda assim a forma da Oratória barroca em que os textos bíblicos se alternam com reflexões corais (com melodias dos corais luteranos) e reflexões poéticas nas árias dos vários solistas.
Mas apesar de ser uma obra coral exaustiva (duas horas e meia de música em que o coro quase não tem descanso) não consigo deixar de referir a abertura, a única sem vozes. Às vezes basta ouvir uma abertura destas para sabermos que estamos perante uma obra única. Quando soube que Mendelssohn disse um dia que não sabia como fazer a abertura para a obra, que não sabia como acabá-la, perguntei-me como seria a obra se o compositor não tivesse tido essas dificuldades.
Em suma, uma obra grandiosa e espiritual como uma semana santa nos pede e na comemoração de um Santo que escreveu dos mais belos textos da bíblia.

Sábado, dia morto, foi um dia bem activo. À tarde fui a casa da diabba, à caverna do norte, era suposto pintar uma paredes mas acabei por montar quatro cadeiras e tomar um chá com folar de trás-os-montes. Depois de jantar com amigos que já tinham passado o dia a beber valentemente, rumei à baixa da minha cidade (e que baixa, carago) para ir tomar um copo com a Diabba (que não conseguia andar com os seus sapatos agulha na calçada portuguesa – só não percebo como o faz lá em baixo porque a calçada da capital, além de ser mais irregular é mais escorregadia, que isto de ser basalto e calcário e não granito tem muito que se lhe diga) e com a Aenima.

Domingo, rumo ao Marco de Canaveses, onde o cabrito (que pernoitara envolto em vinho, alho e louro numa bacia de plástico em casa dos meus pais) assava num forno de lenha enquanto deixava cair a gordurinha para o alguidar de barro onde ainda se faz o arroz. E como nos bons velhos tempos do avô, casa cheia. Bendita a hora em que o meu avô se lembrou de mandar fazer uma mesa corrrida na adega, ali entre tonéis e pipas, garrafas e lagar, salgadeira e cuba de vinho, com as mais estranhas coisas penduradas das vigas de madeira (as cabaças, as batedeiras manuais, as candeias de azeite, as canecas de porcelana para o vinho verde, ...) onde coubémos os mais de trinta, o respectivo cabrito e o arroz, os pães-de-ló (sim que eram muitos), o pão-podre, o bolo de amêndoa e os pudins de ovos mais o presunto que o meu tio cortava em fatias tão finas mas que tão bem combinavam com o pão-de-ló e o queijo da serra. À hora do compasso, a história de sempre: entra o padre que estudou no colégio com a minha mãe, atira-nos com a àgua benta, a minha mãe diz que não sentiu nada e ele diz: para esta pecadora é preciso muita àgua e lá vai meio balde.

Segunda-feira, deveria ser na Feira mas a família era a mesma e tinha uns assuntos a tratar – renovar o caducadíssimo BI – mas como eu, pensaram outros milhares, que a fila para a renovação saía pela porta fora e já não davam aquelas senhazitas (como as do talho) enquanto se “aguarda a vez”... à noite ainda fui tomar um copo com uns amigos porque um deles tinha consulta marcada. Pois é, ao que parece, o Lusitano faz cartas astrais grátis às segundas à noite aos clientes mas é necessário marcar. Mostraram-se tão impressionados e entusiasmados que lá me convenceram a marcar para daqui a duas semanas – claro está que duvido poder estar presente, afinal estou na ilha, assim que se alguém quiser aproveitar a vaga...

Terça-feira o meu pai parece preocupado. Pelos vistos há greve da Portugália – enfim, mais preocupado do que eu, se não for hoje vou amanhã e não haver voo é falta mais do que justificada. Obrigadinho Portugália, acertaste em cheio, mais um dia de férias veio mesmo a calhar. Era escusado era a viagem de duas ao aeroporto que esse já eu conheço demasiado bem.

Depois destes dias de reencontros com amigos e família, de comezainas físicas e espirituais, fica um apontamento breve ao sentido da semana. Desliguei-me dos problemas do dia-a-dia, não pensei em crise, mau ambiente de trabalho, protestos. Vivi para mim e para os meus. Sofri pelos meus amigos que sofrem (e infelizmente não são poucos). Alegrei-me pela alegria dos outros, principalmente da família. Preocupei-me seriamente com outros dois amigos que me esqueci dos que se fazem de amigos para benefício próprio.

Foi uma semana cheia de emoções boas e más, mas principalmente boas, em que senti mais perto os amigos e a família e em que pela primeira vez não queria regressar à ilha.



Paulus, Ouverture, Spering - Mendelssohn


domingo, 5 de abril de 2009

Páscoa

(Do hebr. pesakh, «passagem», pelo lat. vulg. pascùa)

Confesso que não sei muito bem onde me situo. A Igreja tem muitas coisas que me incomodam, nomeadamente o exigir valores, muitos deles longe da mensagem original.

Se nos ficarmos pelos ensinamentos do Cristo temos uma religião simples, difícil mas simples. Este Homem substituiu todos os mandamentos de Moisés, já de si fundamentais, para dar-nos um novo mandamento, o resumo do que deveria ser o Cristianismo moderno, amai-vos uns aos outros.

Não julgo a Igreja como não julgo ninguém. O valor de amar todos, amar todos por igual, tantas vezes deturpado pela igreja e pelos homens é o que me interessa.

Não me identifico com a maioria dos ensinamentos do novo catecismo. Não me identifico com o homem que está à frente da Igreja mas um dos meus exemplos, talvez o maior, é esse homem que se dizia filho de Deus e Deus. Este mistério, o mistério da Trindade, é-me difícil de aceitar. Uns dias acredito mas quando penso nele racionalmente não acredito. No entanto começa a semana maior. A semana em que um homem de carácter forte com a franqueza e entrega dos loucos se deixou morrer porque nunca deixou de defender a sua verdade. O que é a verdade?

Admiro-o e acredito no lema, na pedra basilar dos seus ensinamentos, amar. Não julgar, respeitar, perdoar e sobretudo amar porque como diz São Paulo o amor move montanhas.

Se eu visse na Igreja este ensinamento sem outras morais, concerteza ainda faria parte dela. Assim, fico com as palavras deste Homem.

Celebro aquela a que os homens chamaram a semana maior em que um homem foi capaz de perdoar o mal que lhe infligiam, um homem louco para muitos e divino para outros tantos, o homem que nunca deixou de lado os seus princípios.

Sexta-feira santa é o único dia do ano em que ainda vou à Igreja para ouvir uma das mais belas passagens desse magnífico livro chamado bíblia, o livro dos cinquenta livros. Ao fim de todos estes anos ainda sinto o mesmo arrepio na espinha quando ouço Tudo está consumado.

Celebro a passagem, a minha e a dos meus e vejo que há muito para andar. Procuro a verdade e ser mais do que nunca fiel à minha verdade. Estou de passagem e nada melhor do que vivê-la com amor.

Vivências


Kommt, ihr Toechter, helft mir klagen - J.S. Bach .




"Erbarme dich" Bach St Matthew Passion Matthauspassion

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Os anormais III

É engraçado como toda a gente tem uma opinião àcerca de tudo, mesmo do que não sabe.

Porque afinal se eu financiar um "aluminum smelter" em Moçambique que emprega milhares de moçambicanos que não tinham onde cair mortos e com isso a empresa constroi estradas, aeroportos e floresce o comércio tradicional, apoiado pelos bancos de desenvolvimento e pelo World Bank, e se é dado como exemplo de bom investimento sustentável no país e fora dele; ou se decidir financiar um porto perdido no sul da Anatólia para distribuir e escoar a produção no e do Médio Oriente que emprega milhares e com ele vêm armazéns, empresas de logística , se aumenta o turismo e com eles emprego e riqueza; e a lista continua, não estou a fazer nada para que as condições nestes países melhorem. É melhor deixar esta gente no meio das suas terras improdutivas sem nada para fazer e a morrer à fome. É ir lá ao terreno e falar com eles e ver os olhos brilhar porque já podem pôr os filhos na escola. Se isto não é viver melhor, então não sei o que é, mas sei o que vejo e o que me é dito nas minhas visitas aos projectos.

Mas parece que não, estes pobres nem têm dinheiro para voar "low cost" para se manifestarem... pois digo eu, estão muito mais preocupados com outras coisas, têm mais que fazer, sobreviver e manter um trabalho é mais importante que ser uma carneirada de olhar enviesado, que usa e abusa de um sistema económico e social que os sustenta para o deitar abaixo.

O que está mal corrige-se com actos, fazer, mas fazer todos os dias. Não é acordar todos os dias ressacado, dar duas voltas na cama, beber até cair para o lado, fumar uns charros e umas drogas que financiam sabemos todos muito bem o quê. E um dia porque é mais difícil ter-se a vidinha do costume, acorda-se e toca a culpar tudo e todos, porque andaram a brincar com o dinheiro deles.

Não me venham falar de moral. A minha moral está naquilo que faço. O que faço no meu trabalho e o que faço fora dele. Todos os dias. E não é por isso que venho para aqui vangloriar-me do que faço. Dou o meu tempo, às vezes chego a dar a minha saúde. Três projectos pessoais diferentes para fazerem deste mundo um mundo melhor.

Por isso não me venham cá com tretas. Não fui eu quem criou esta crise, não explorei os pretos (não tenho medo das palavras) e não exploro os brancos. Tive uma vida que foi um mar de rosas? Quanto mais rosas, mais espinhos meus amigos. Mas não vale a pena queixar-me. É andar em frente.

Conheço a minha vida como ninguém, conheço os meus valores, todos os dias luto para não me deixar ficar mal.

E se sou bem pago? Sim, sou muito bem pago, principalmente pelos esquecidos que não têm futuro e a quem este mundo sujo ainda oferece algum conforto. Sou bem pago quando vejo que os meus sacrifícios físicos dão frutos com fundos do Estado para melhorar a vida de milhares. Sou bem pago quando uma criança se despede de mim enquanto me olha nos olhos como sou bem pago quando vejo as mudanças nas caras das pessoas envolvidas nos meus projectos com o passar do tempo.

E isto é dar-se todos os dias, é um sacerdócio, uma forma de vida. Há que abraçá-lo sempre.

Se todos os que vêm aqui para a porta mandar vir fizessem metade do que eu faço, concerteza este mundo seria bem melhor.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Os Anormais II

Eu até compreendo que haja muita gente descontente, compreendo que a maioria das pessoas que enchem as ruas da "city" nunca tenha vivido momentos tão complicados e que sintam necessidade de demonstrar as frustrações.

O G20 foi a oportunidade e o povo veio para a rua. O povo, como quem diz, gente que não tem mais que fazer, que não trabalha porque vive confortavelmente "on dad’s bank" ou dos meus impostos.

São os ambientalistas que vieram aos milhares depois de terem voado "low cost" (porque vieram dos quatro cantos do mundo), anti-capitalistas mascarados de bancários, galinhas e outros carnavais, vestidos e com máscaras importados da China e feitos sabe-se lá em que condições, os anarquistas que só querem provocar distúrbios e colapsar a cidade que chegaram de metro. Estão-me a entender. Então eu sigo.

Acamparam à frente do meu escritório aos milhares, o escritório fechado e eu em casa, nem acesso remoto tenho porque o servidor está colapsado. Quiseram dar-nos um dia de férias? Obrigado! Até está um dia de sol para passear calmamente no parque vazio – afinal vocês que não trabalham decidiram ir passar o dia à "square mile".

Mas que fique aqui um ponto bem assente. Eu trabalho com dinheiro, invisto dinheiro que não é meu e não me envergonho disso. Quando passeio no meu país e vejo os parques eólicos penso: está aqui o meu trabalho; quando estive agora na Turquia, na fronteira com a Síria, uma zona deprimida e vejo milhares de gente com trabalho vejo o fruto das minhas horas. Segue-se Moçambique onde estou no maior empregador, os Camarões, a Nigéria, a lista continua... Se ninguém fizesse o que eu faço, estas regiões seriam ainda mais pobres e disso ninguém fala.

Mas nunca gastei dinheiro que não podia gastar. Nunca vivi acima das minhas possibilidades, não tenho um único empréstimo. Um único! Se bem que compreenda e apoie empréstimos para projectos pessoais e empresariais essenciais, sim, as pessoas precisam de casa e carro, não percebo os empréstimos ao consumo. As férias, o LCD, a consola, as festas e os jantares, roupas de luxo, não faz sentido. E se quem dá é responsável, é igualmente responsável quem aceita. Não me venham cá com conversas. Nascemos todos com um cérebro, é uma questão de o usar. Só que é muito fácil e cómodo viver encostado a um sistema que foi construido com base numa mão invisível que distribui a riqueza, mas a premissa de que cada um gasta o que tem falha porque somos um bando de preguiçosos e é melhor dado do que trabalhado.

Perdi o respeito por esta gente com vistas curtas. Que só vêem o que lhes interessa sem perceber o resto.

Esfalfei-me durante dez anos, estou esgotado com tudo isto, com quem rouba, quer os colarinhos brancos, quer os que gastam o que não têm.

Os anormais estão na rua, não nos deixam ir trabalhar, outros tiveram de se mascarar de anormais para poderem chegar ao trabalho como se não fosse suficiente o que se passa dentro de portas.

Quando me perguntam onde trabalho, quando ouvem a minha resposta, vejo todo o tipo de caras, pena, asco, compreensão... um dia disseram-me que mais valia dizer que recolho esperma aos elefantes do zoo. Meus amigos, o que faço é o que faço, com orgulho. Nunca faltei ao respeito a ninguém, nunca roubei ninguém, nunca impedi ninguém de trabalhar e aguento-me como posso de cabeça levantada.

Podia até contar as misérias que temos passado e do terrível ambiente de trabalho, mas isso não interessa. Não quero a vossa pena como não aceito a vossa condenação.

Está aí um mundo que precisa de cuidados, não precisa de um bando de anormais que voou em massa para se manifestar contra as alterações climáticas, que se mascarou com máscaras trazidas da China porque é anti-capitalista, que faz uma economia parar e gastar mais uns largos milhões quando o que precisamos é de evitar custos que não têm retorno.

Até podia agradecer o dia de férias, mas o que quero mesmo dizer-vos é: deixem-me trabalhar!