domingo, 21 de junho de 2009

A Casa

Hoje é o dia mais longo do ano, longo, longo, longo como todos os outros dias, vinte e quatro horas que se arrastam e teimam em não passar.

A casa está escura com a fria manhã cinzenta de Verão. As entranhas tolhidas pela falta de luz. As cortinas ainda corridas lembram os dias de sol mas não há força ou vontade de abri-las e deixar entrar a fraca luz da fria manhã do solstício. Esticar o braço, alcançar o interruptor, torna-se tarefa árdua como árduos são os dias sem luz.

Uma televisão acendida sem som espalha cores e fantasmas, povoa a casa como pensamentos vindos do nada. Fantasmas de gente ida que um dia habitou a casa, que um dia foi a casa. Fantasmas que exacerbam a distância e amargam a solidão.

A casa sem luz e sem ar não respira e corrompe-se. Os vidros partem-se como que a dizer “respira!”. As fendas aparecem e a casa passa a ser uma casa assombrada, assombrosa, assustada, uma sombra daquilo que foi um dia.

Quem se aproxima vê a casa ao fundo do caminho. Ao fundo do caminho a casa. A vegetação esconde-a sob um manto verde. Aqui e ali a brancura da cal espreita lado a lado, de mãos dadas com o cinzento do granito frio. Ao fundo do caminho a casa. As imensas janelas de vidros partidos, o alpendre podre que a rodeia, o ferro enferrujado das varandas com a cor da velhice, as chaminés secas sem fumo.

Quem se aproxima da casa vê o caminho tornar-se mais curto, a casa maior e mais velha, a casa ao fundo do caminho. Acaba o caminho e a casa é uma porta, grande, de madeira velha e seca, um cadeado novo que envolve os velhos trabalhos de ferro e substitui a fechadura sem serventia.
O cadeado novo que impede a visita à casa assombrada, assombrosa, assustada. A casa onde ninguém consegue entrar, a casa de onde não se consegue sair. Ao fundo do caminho a casa assombrada, assombrosa, assustada, uma sombra daquilo que foi um dia.