sábado, 1 de agosto de 2009

Chegou Agosto

Não é uma grande novidade que vos dou. Chegou Agosto. Aqui na ilha Agosto acordou com cara de Outubro. Mas é Agosto. O rectângulo quase pára. As cidades esvaziam-se e é um prazer passear na cidade que respira após um ano de trabalho. Em Londres não se nota que já é Agosto. A cidade continua cheia de gente e o tempo, talvez guiado pelo bulício da cidade, não se ajustou ao calendário.
Sempre gostei de trabalhar em Agosto. Felizmente sempre me pude dar a esse luxo. É tempo de fechar um ciclo e começar um novo, de organizar as pequenas coisas que o dia-a-dia dos outros meses deixou acumular. Mesa limpa, chega Setembro e parto de férias.
Mas este início e este fim que é Agosto tem para mim um significado mais profundo. O tempo faz-me recuar a 1950 quando numa vila, agora cidade (cidade!) despojada da beleza de outrora, nasceu a minha mãe – início; e onde em 1994, no mesmo dia, à mesma hora, a minha mãe se despediu do meu avô – fim.
Quinze anos, avô, quinze anos. Passado todo este tempo ainda sinto a mesma saudade avô, sinto a tua falta, quero ouvir as tuas palavras sábias, viver a tua entrega, ver os teus olhos da côr dos meus vivaços e espertos. Ano após ano descubro que te amo cada vez mais e encho-me de orgulho quando me dizem que me pareço contigo. És o meu exemplo de vida.
Recordo-me desse dia como se fosse hoje. Nós no Algarve, tu no hospital, tinhas melhorado e disseste-nos Ide!. Mas nessa manhã bem cedo a mãe disse Quero passar o meu aniversário com o meu pai, e a mãe e o pai seguiram viagem. E eu, a minha irmã e a nossa prima ali ficámos. Já noite chega o telegrama e o que se passou a seguir foi mágico. Enquanto as tuas netas choravam e se consolavam, eu saí. Saí e deambulei em silêncio sob o céu coberto de estrelas. Dizem que desapareci um bom par de horas, para mim foi um instante. Nesse momento senti-me contigo, acompanhado e experimentei uma paz que nunca voltei a sentir. Senti que o mundo tinha parado e tudo era perfeito, e essa paz, o silêncio, tudo fazia sentido como se a tua mão estivesse pousada no meu ombro como em criança quando me defendias das ameaças que eu sentia quando passeávamos pelo monte, quer à caça, à pesca ou simplesmente a apanhar o rosmaninho para receber o compasso. Era a mesma mão protectora que sentia na minha meninice.
Mais tarde, falando com a mãe, descobri que também a mãe sentiu a mesma calma. Nós, claramente os que mais ligados a ti estávamos, que bebíamos dos teus valores e da tua sapiência nesta relação entranhada e umbilical, não chorámos a tua morte. Recebêmo-la como uma benção. O fim da tua vida na terra, o início da tua vida em nós.
Talvez por isso o dia e a hora. Escolheste para partir, sei que escolheste, o dia e a hora em que foste pai pela primeira vez. O momento exacto em que geraste vida e na vida da mãe geraste a minha. Provavelmente sabias que nesse exacto momento se abria uma porta que te levaria a nós.
Ainda mais curioso é o facto de neste preciso momento e sempre que me recordo de ti, e são muitas vezes, sentir um pouco dessa paz e a tua mão protectora.
É Agosto, o mês do início e do fim. No próximo fim-de-semana, dia oito, estarei no Porto com a minha mãe a celebrar a vida, as vidas, a Vida porque dia oito é dia de festa. Festa em que participam os que estão presentes e os que vêm dentro de nós.