sábado, 24 de outubro de 2009

London is London

É oficial.

Vou deixar Londres. Após quase seis anos na ilha, é hora de mudar. Não foi uma decisão difícil. Promoção, aumento, estar mais próximo de casa, da minha princesa, agora afilhada, uma cidade onde já vivi e onde finalmente me encontro com a cara-metade-mais-que-tudo, não dá muito que pensar.

Em Novembro começo oficialmente a minha nova vida em Madrid, se bem que durante uns meses viverei como um nómada a saltar entre Londres e Madrid porque ninguém se consegue mudar numa semana.

No entanto, e ainda estando em Londres, já sinto saudades desta imensa metrópole. Só aqui consigo encontrar um concerto de alto nível todos os dias, posso dizer que quero ir à ópera e tenho uma produção excelente sempre disponível, o meu Barbican de estimação onde tantas vezes ouvi Bach e outros sob a maestria de Sir John Eliot Gardiner, os meus musicais e os brunch de Domingo.

Os mercados de rua ou as lojas de Mayfair, gente e mais gente e mais gente como se a cidade vivesse numa contínua noite de S. João.

Os museus e os palácios, as grandes igrejas com concertos ao meio dia por coros que só existem no país que tem os melhores coros do mundo. As exposições e a arte de rua.

As manhãs cinzentas ou as tardes de sol nos imensos parques. Caminhar pelo Regent’s Canal, subir a Primrose Hill e abarcar a imensa cidade no silêncio.

Os amigos que cá estavam e os que fiz entretanto. O pub à saída do trabalho, a confusão da rush hour e a vida da city onde milhares de pessoas, como eu, caminham apressadas, agasalhando as mãos num café.

Acima de tudo os meus meninos, os que estão e os que brilham lá em cima. Os meus meninos que verei amanhã pela última vez. Os meus meninos, os olhos vivaços de quem acredita que tem uma vida pela frente. Quero acreditar que sim.

E o John, falei dele um dia aqui, que morreu no dia de todos os santos, faz este ano dois anos, e o meu menino da Nigéria, o menino que, faz em Dezembro um ano, se despediu do mundo olhando-me nos olhos. Os olhos que ainda hoje vejo.

Isto é Londres para mim. A cidade que me transformou, fez-me adulto, calmo, a cidade que me enterrou os fantasmas e me deu uma nova alegria de viver, não a loucura da adolescência mas uma alegria serena, interior, um crescimento imenso, me fez mais humano.

Londres é Londres e será sempre uma parte de mim.


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Cinco de Outubro


Há noventa e nove anos o meu país fez uma revolução. Decidiu que um regime monárquico não lhe servia e escolheu a república. Mudança difícil e violenta, desgoverno constante e falta de visão moral e social, como um adolescente que descobre um mundo novo à sua frente, a primeira república saiu-se mal e acabou por se derrubar também fruto de incompetência, interesses pessoais e divergências internas.

Abriu caminho à ditadura militar e ao Estado Novo e a quase meio século de “Deus, Pátria e Família”. Anos de forte crescimento económico, desenvolvimento sustentado, infra-estructuras, saúde e educação, foram também anos de fim de liberdades, de perseguição, anti-partidarismo, e uma guerra que defendia o que já era indefensável.

Dizendo chega, o país entrou outra vez num ciclo de desgovernos, rápida delapidação dos cofres do estado e crescimento da pobreza, apaziguados década e meia mais tarde com os fundos que chegavam de fora e com a primeira estabilidade governativa após o Estado Novo.

Findos os fundos, instala-se a crise que vai muito além da económica. Crise política, social e moral de um país velho mas que ainda não sabe nem se deixa governar.

Um feriado que celebra muitos ideais e só ideais. Uma celebração de quase um século de mediocridade governativa de um povo que então se sentava no café a jogar às damas (às damas! nem sequer xadrez) ou à soleira da porta a falar do tempo e que hoje se passeia em centros comerciais ou se senta a ver a bola.

É isto que celebramos.


PS – e não sou monárquico! O que diria se o fosse.